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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Sobre princípios e valores

 Admiro aqueles que permanecem fiéis aos seus princípios e valores, independente das circunstâncias. Provam que existe coerência em suas atitudes. Noutro extremo, me entristeço por alguns que mudam de discurso conforme a oportunidade, interesses e conveniência. Provam que no fundo tudo não passa de uma retórica oportunista.

O Brasil só irá superar a sua condição de subdesenvolvimento quando verdadeiramente houver uma transformação cultural na cosmovisão de sua população, e esta deixar de flertar com a cultura do subdesenvolvimento e do atraso. Enquanto isso não ocorrer, o certo será certo apenas quando lhe convém. E o errado, quando lhe convém, tornar-se-á "certo" por mera conveniência.

domingo, 29 de maio de 2016

A necessidade de reforma de nossa cultura política



Enquanto o Brasil não realizar efetivamente uma verdadeira reforma política o exercício da governabilidade será sempre um desafio muito difícil para qualquer presidente eleito democraticamente.
A cultura que se solidificou no país foi a do fisiologismo descarado, tendo a sociedade não como vítima, mas como cúmplice na medida em que elege e reelege políticos que pautam o seu exercício parlamentar com base nesta prática, em que acompanha passivamente o exercício explícito de negociatas em troca de votos, e em que espera em algum momento a retribuição do voto não com base num exercício ético e efetivo da atividade parlamentar, mas na concessão de algum favor, alguma vantagem ou algum cargo.
Nesse jogo, o parlamento brasileiro ao invés de se pautar no enfrentamento dos desafios da Nação, se pauta no oportunismo momentâneo da cultura fisiologista. Os votos nas casas legislativas não são dados com base em convicções políticas, argumentos técnicos e/ou ideológicos, mas na troca de favores e na concessão de espaços, leia-se cargos.
Obviamente isso tem limite. Assim, quando o Poder Executivo esgota a sua capacidade de concessão, perde a governabilidade e, como consequência, a crise política se instala. Portanto, ao lado da reforma política, e talvez até muito mais importantes, se faz necessária uma reforma ética e moral de nosso parlamento, mas, sobretudo, de nossa cultura política.

terça-feira, 10 de março de 2015

A simplificação do debate e a hora de dizemos basta


Como bom economista heterodoxo, que tem fundamentos nas teorias seminais de Marx, Keynes, Kalecki, Shumpeter e na Escola Estruturalista Latino-Americana, compreendo muito bem o papel da luta de classes na sociedade capitalista. Da mesma forma, entendo como o capital acaba mercantilizando todas as relações sociais na ânsia de ampliar os seus horizontes de valorização, inclusive as instituições políticas da sociedade.
Desta forma, tentar reduzir o atual momento da sociedade brasileira a uma mera disputa entre burguesia de “panela cheia” e trabalhadores “de pratos vazios” é um exercício de má fé e uma tentativa de tirar o foco da principal pauta posta hoje na sociedade brasileira: a corrupção.
  As nossas instituições políticas estão corrompidas. Os nossos partidos contaminados. O “jogo político” de “cartas marcadas”. Neste contexto, o financiamento de campanhas políticas e o processo de cooptação praticado nos exercícios legislativos  levam muitas vezes ao processo de usufruto privado dos recursos públicos por meio da corrupção.
Os nossos valores como sociedade estão deturpados. Precisamos recuperar a boa política, que não olhe para projetos pessoais ou de grupos, mas que faça do processo democrático um meio de construção de uma sociedade mais justa, mais digna, mais honrosa, com valores e princípios corretos. Assim, o debate atual não é entre PT ou PSDB. Entre burguesia e proletariado. Mas entre os bons e os maus valores. O nosso debate é sobre a corrupção. Não podemos mais tolerar escândalos após escândalos e seguir as nossas vidas como se nada tivesse acontecendo, ou como se este debate não tivesse nada a ver conosco. Somos afetados diretamente. Somos as principais vítimas do processo político viciado.
Precisamos realmente reconstruir os nossos fundamentos políticos. E estes fundamentos somente serão reconstruídos quando aprendermos a votar corretamente como sociedade. As manifestações populares são justas e necessárias. Mas de nada adiantará se nas próximas eleições reconduzirmos os nossos “algozes”, os “algozes” dos valores éticos e morais de nossa sociedade para novos mandatos. Está na hora de dizermos basta!  

terça-feira, 15 de abril de 2014

Comunicação política e comunicação de governo numa sociedade de massas


Por Juliano Corbellini – Publicado originalmente em Política para Políticos em 11/03/2014


Não é novidade a consideração de que a política, no mundo contemporâneo, passou por uma metamorfose no sentido de sua “midiatização”. O sentido da palavra “midiatização”, entretanto, na maioria das vezes não é compreendido com a abrangência devida.
O processo de “midiatização” significa muito mais do que a ocupação de espaços de propaganda nos veículos de comunicação. Antes disso, significa “mediar” (mídia = “media” (ingl.); midiatização= “mediatizzazione” (it.)), ou seja, “passar do (im)ediato ao “mediato”, do contato direto a representação substitutiva do evento político”.
Numa sociedade de massas, o processo de comunicação através da mídia de massa “media” o contato dos cidadãos com eventos com os quais eles não têm contato direto e imediato. Assim, pode-se dizer que um governo “acontece” em dois planos: o plano “imediato” naquele em que os cidadãos vêem a obra e percebem diretamente os seus benefícios; e o plano “mediato”, que é a “representação substitutiva” da obra ou do evento político.
O segundo plano dificilmente se sustenta artificialmente sem o primeiro. Mas o primeiro plano se dissipa e se dissolve sem o segundo. Os governantes, que vivem no mundo “imediato”, lutam sempre contra o risco de uma visão distorcida sobre o seu próprio governo. Eles vêem o governo que “realmente acontece”, mas não necessariamente o governo que é percebido de maneira mediatizada pelos cidadãos.
O processo de “mediatização” de um governo, através do qual ele acontece nesse segundo plano que é decisivo para o seu acumulo de capital político, significa essencialmente vencer a batalha pela conquista da visibilidade. A frase também parece óbvia, mas talvez não o seja tanto em seu significado, e nas dificuldades que ela implica. A conquista da “visibilidade política” não se reduz a uma visibilidade de tipo “expositiva”.
Assim o fosse, bastaria novamente empilhar obras em anuncios pagos nos meios de comunicação. A conquista da “visibilidade política” para um governo (assim como em uma campanha) significa a vitória numa batalha em que se precisa “explicar eventos políticos, justificar ações políticas, afirmar uma identidade política, pautar e estruturar o debate político”.
Trata-se de uma visibilidade representativa de determinados valores e conteúdos. Por exemplo, quando eu digo “abri um posto de saúde”, eu estou “expondo” um evento político. Quando eu digo “abri um posto de saúde porque minha prioridade é a agenda social”, estou explicando, justificando, firmando uma identidade, pautando os meus adversários para um debate que me favorece.
Obras e realizações administrativas legitimam e são a base necessária de um processo de comunicação de governo, mas não são entretanto condição suficiente para vencer a batalha da visibilidade.
Um segundo aspecto da batalha pela visibilidade é o que se chama “geometria da visibilidade”. O êxito da visibilidade de um governo, ou seja, o processo de legitimação de uma informação que é “mediata”, não depende só da competência publicitária e estratégica de suas ações de mídia.
O governo não é o único “agente” nesse processo. Existem outros dois agentes fundamentais para dar credibilidade a essa informação: a imprensa, que também “media” o governo ao reproduzir noticias e emitir opiniões sobre o governo, e a própria comunidade, que ao “falar” (bem ou mal) sobre o governo também age como “formadora de opinião” (aliás, as vertentes mais modernas da sociologia política não falam só em “um grupo” de formadores de opinião, mas em “grupos” formadores de opinião existentes em cada estrato social).
Esses dois segmentos sociais possuem uma importância estratégica primordial, na medida em que a “informação de governo” possui, a princípio, uma baixa credibilidade, pela razão evidentemente interessada que a motiva. Assim, a batalha pela visibilidade, pela “percepção mediatizada” do governo, deve saber operar o tripé mídia publicitária- imprensa- comunidade. Seu êxito, assim, depende de uma operação sinérgica nessas frentes.
Os desafios da comunicação de governo, dessa maneira, guardam algumas similitudes com os desafios de comunicação de campanha: ele precisa ter foco e ser repetitivo para ganhar visibilidade e fixar conteúdos, e precisa ter uma equação estratégia que faça com que o seu conjunto de obras e realizações convirjam para afirmar uma identidade sua, formando uma opinião política na comunidade que preserva e ampliar o seu capital política.
Todos os princípios estratégicos do “modo de campanha” (manter o foco, dominar a agenda, fazer do adversário parte de sua estratégia e não o contrário, etc.) continuam, assim, valendo no “modo de governo”.
As distinções, porém, são também fundamentais. A população aceita e até exige que o governo mostre realizações, mas, ao contrário do momento da campanha, está em melhores condições para “flagrar” a propaganda enganosa ou fictícia.
No momento da campanha, o “diálogo” fundamental que se estabelece é entre as campanhas adversárias (ou seja, entre atores todos de baixa credibilidade).
No momento de governo, o “diálogo” que se estabelece em regra é governo-imprensa-comunidade, um diálogo onde o governo tem menos credibilidade, mas em compensação pode jogar praticamente sozinho na administração dos seus recursos. O seu desafio, assim, é jogar o máximo de virtude nessa administração de recursos.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Mais importante que começar bem é terminar bem


Obs.: Publicado por Francisco Ferraz em 27/02/2014 no sitio eletrônico de Política para Políticos

Na vida como na política, começar bem é fácil, difícil é terminar bem.
Neste aspecto, o senso de “timing” é uma das maiores provas de sabedoria política. É você quem deve decidir quando e como terminar, com todos os riscos envolvidos numa decisão, que sempre estará cercada de dúvidas e incertezas.
Se for o contrário, se a iniciativa de terminar escapar ao seu controle, você perdeu o melhor momento, provavelmente tentou “segurar” a posição por mais tempo do que era possível, passando assim um atestado de falta de sensibilidade, oportunidade e lucidez.
Começar bem é fácil. Você ainda não é conhecido, as pessoas ficam curiosas, querem conhecê-lo, e você pode apresentar-se a elas sob a sua melhor luz. Além disso, você é a novidade e, como toda novidade,  é notícia, é atração e corteja o sentimento dos outros de transformar o que é desconhecido em familiar.
Mais ainda, ao começar você não é julgado contra expectativas, e comparado com elas. Não há expectativas fixadas que você precisa corresponder. É você mesmo quem vai, aos poucos, criando e definindo expectativas, o que deverá levar em conta a sua capacidade de realização.
Por fim, quem começa estimula nos outros uma disposição para ajudá-lo. As pessoas sentem satisfação em “ensinar”, “orientar”, “advertir e aconselhar” o novato.
Como se vê, começar, a menos que o indivíduo se revele um completo desastrado, é relativamente simples, sem maiores riscos, e conta com poderosos sentimentos favoráveis nos outros para ajudar.
Na política, entretanto, a advertência recai sobre o ato de terminar e não ao de começar: “Assim sendo, seja cuidadoso com a forma como você termina as coisas, e dedique muito mais atenção a uma saída exitosa do que a uma entrada sob aplausos. O que importa não é ser aplaudido quando se entra – pois isso é comum – e sim o de fazer com que sua falta seja sentida quando você sai” (Gracián).
Muito raros são aqueles cuja falta é sentida depois que saem.
A sorte quase nunca companha quem sai, até a porta de saída.
Ela é cortês para com os que chegam e costuma ser rude com os que estão de saída...

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A política do Século XXI e a campanha eleitoral


Por Francisco Ferraz

 

Obs.: Publicado originalmente em 24/02/2014 no sitio eletrônico de Política para Políticos

 
O que se costuma chamar de politica do século XXI teve início no século XX. Ela resulta das consequências políticas da revolução nos recursos e veículos de comunicação social ocorrida no século passado.
A voz humana, o texto escrito e a imagem - os recursos fundamentais da comunicação entre as pessoas, desde o início dos tempos - foram sucessivamente transformados pelas inovações tecnológicas, acarretando mudanças na própria estrutura da sociedade moderna.
A modernização dos equipamentos e veículos de comunicação seguiu objetivos bem definidos: a velocidade, a miniaturização, a portabilidade, a multifuncionalidade, a instantaneidade, a redução no custo das operações e dos equipamentos, e a capacidade de armazenamento e processamento.
Essas mudanças, embora revolucionárias, são entretanto recentes e em constante e acelerado aperfeiçoamento e renovação. Não podemos nos esquecer que, no Brasil, a TV surgiu na década de 50, o computador pessoal nos anos 80 e o telefone celular na década de 1990.
O telefone, a televisão e o computador são os três pilares tecnológicos que provocaram essa revolução na comunicação e empurraram a política, e os demais aspectos da vida social, para uma nova era.
O modelo tradicional de fazer campanhas eleitorais, por exemplo, já foi completamente superado pelas nova tecnologia de campanha. A opinião e o palpite foram substituídas pelo conhecimento produzido pelas pesquisas; o conhecimento político, apoiado numa “alegada experiência” de passadas eleições, foi substituído pela contratação de profissionais especializados em ciência política e marketing; a assessoria partidária e familiar do candidato, pelo núcleo constituído pela assessoria em estratégia, pesquisa e publicidade, associado a quadros partidários e executivos de confiança do candidato.
Essa revolução nas comunicações produziu também um novo cidadão, com novas exigências e expectativas ao qual deve corresponder um novo político.
A linguagem que esse cidadão melhor compreende é a linguagem da TV. O período de tempo a que a ela estamos sujeitos, e a freqüência com que a ela nos expomos, impôs essa nova linguagem a todos nós.
Nossos “receptores” mentais passaram a exigir uma linguagem direta, clara, visual, concisa e conclusiva, como é a da TV.
Adquirir informações confiáveis, conceber a estratégia mais adequada e produzir a comunicação do candidato que seja compreendida, retida na memória e aceita pelo eleitor, tornou-se um desafio intelectual de grandes proporções. De seu adequado equacionamento vão depender as próprias condições de competitividade de uma candidatura.
Equivale ao enigma da Esfinge proposto a Édipo: “Decifra-me ou te devoro”.

sábado, 15 de março de 2014

Quando chega a hora de cortar o orçamento - Parte I


Por Francisco Ferraz. Publicado em 17/01/2014 no sitio eletrônico de Política para Políticos.

Há momentos em que é preciso “cortar” o orçamento e inibir despesas para “fechar as contas”. Este é sempre um momento difícil para o administrador. Cortar o orçamento é obviamente muito mais difícil do que incrementá-lo. Muitas vezes os cortes precisam ser feitos durante um período de crise, ou imediatamente antes da crise se instalar. Nestas situações, a análise feita é inevitavelmente menos detalhada e minuciosa do que aquela que foi realizada quando se produziu  o orçamento.
Além disso, cortar implica em afetar a vidas das pessoas dentro  e fora da administração: empregos, projetos, prestígio, necessidades básicas, redução da prestação de serviços etc.
O desgaste político, então, é inevitável, a imagem pública sofre, e explicações são exigidas. Por isso, é fundamental conhecer as verdadeiras razões que tornaram o corte necessário, para adotar as medidas corretas, na quantidade certa, de forma a evitar, de um lado,  a prática de uma “mutilação” desnecessária do orçamento, e de outro, cortes que se revelem insuficientes. É preciso encontrar a medida exata para corrigir o problema.

Rever estimativas de receitas

Algumas vezes ocorre que os administradores fazem cortes expressivos nos programas, sem antes rever as estimativas de receita que haviam sido projetadas. Pode acontecer que, as estimativas de despesas foram previstas corretamente, mas as de receita foram calculadas de forma conservadora, abaixo do seu real comportamento. Nestes casos, os cortes poderão se revelar desnecessários. Uma revisão mais realista da receita pode restabelecer o equilíbrio orçamentário.
Esta hipótese não é desprezível. Muitas vezes os funcionários fazem estimativas de receita “a menor” para se garantir. A censura por não alcançar a receita estimada é sempre muito mais grave do que por excedê-la. Sobretudo a imprensa, raramente critica estimativas conservadoras. 

Ajuste(rightsizing) não é o mesmo que redução(downsizing)

A redução generalizada de despesas (downsizing) é uma forma de equilibrar o orçamento num período de crise, procedendo a cortes generalizados. A idéia é que o mesmo pacote de serviços continue sendo provido, embora com menos recursos. Em geral nestas situações, cada departamento ou setor da administração sofre o mesmo percentual de corte. Supõe-se que a crise é passageira, e que tão logo seja superada, as despesas voltem ao padrão anterior.
O ajuste (rightsizing) por outro lado, implica numa análise mais qualitativa da situação. Alcança-se a  meta quantitativa da redução, deslocando recursos entre os programas, de acordo com critérios qualitativos. Assim, programas considerados prioritários são mantidos nos mesmos níveis, “financiados” com os recursos liberados pelo corte de programas menos prioritários. Outra forma de praticar o ajuste é a revisão mais rigorosa da estrutura da administração, aglutinando órgãos assemelhados, extinguindo outros, descontinuando alguns tipos de serviços.
O principio básico do “rightsizing” é que a crise enseja a oportunidade de fazer mudanças de longo prazo, alterações recomendadas e que se consideram permanentes. Trata-se pois de uma ação mais estratégica, e não meramente quantitativa.
Embora os dois conceitos sejam diferentes, eles não são mutuamente excludentes. Muitas vezes faz-se primeiro a redução indiscriminada (downsizing) para depois, passados alguns meses, proceder ao ajuste (rightsizing); outras vezes praticam-se os dois simultâneamente.
 
É aconselhável encarar a crise e a necessidade de fazer cortes no orçamento como uma oportunidade e não como uma catástrofe
 
É sempre aconselhável encarar a crise e a necessidade de fazer cortes no orçamento, como uma oportunidade e não como uma catástrofe. Situações excepcionais legitimam medidas excepcionais e que habitualmente são proteladas. Você pode, então, aproveitar a crise para fazer aquelas reformas que tornarão sua estrutura mais ágil e mais moderna.
A própria gravidade da situação desarma grande parte das resistências que normalmente você encontraria, e retira delas a legitimidade que porventura tenham conseguido adquirir.
Diante de crises as pessoas aceitam que os governantes sejam mais agressivos, que se antecipem ao seu agravamento, que tomem decisões mais duras e até mais antipáticas. Neste sentido, a crise funciona como um escudo para proteger o governante, pelo menos em parte, dos inevitáveis desgastes políticos de suas decisões.

quinta-feira, 13 de março de 2014

O escândalo político: o ponto alto da política espetáculo

Publicado originalmente no sitio eletrônico de Política para Políticos em 22/01/2014


Por Francisco Ferraz 

 As denúncias e acusações de ilegalidades e corrupção, que com tanta frequência são divulgadas pelos veículos de comunicação, trouxeram novamente para o primeiro plano a temática do escândalo político.
Mais uma vez são gravações, documentos, declarações e fotos os elementosque determinam o grau de gravidade dos fatos e, se eles possuem combustível suficiente, para criar um escândalo político.
Sem elementos factuais que ensejem uma forte desconfiança sobre a culpabilidade dos acusados, dificilmente um escândalo político toma corpo. É esta desconfiança que atrai a curiosidade dos leitores/expectadores e o interesse dos veículos de comunicação.
A política então, como é praticada pelos políticos e relatada pelos jornais, revistas e TV, adotou as características de um grande espetáculo, no qual o escândalo tornou-se o seu programa de maior atração. 
Dentre os desastres que podem atingir um homem público, o escândalo é um dos acontecimentos mais temidos, pelos seus efeitos  letais para a carreira política.  Nada apavora mais um político do que ver-se subitamente às voltas com um escândalo.   Sim, subitamente, pois é normalmente dessa forma que o escândalo político faz a sua aparição.
O escândalo atinge diretamente a sua reputação e imagem e se constitui numa ameaça muito real de destruição de ambos.
Escândalo político, entretanto tornou-se um conceito próprio do mundo da política. Assim, nem tudo que é escandaloso classifica-se como escândalo político.
Escândalo não é o mesmo que denúncia; também não se aplica o conceito a fatos negativos mas que são considerados pelo eleitor como de pouca relevância; ou a fatos que são percebidos como escandalosos por um segmento limitado de pessoas; ou ainda que não demandem uma ação corretiva ou punitiva da parte de órgãos políticos ou do judiciário; ou enfim que não ganhem uma expressiva exposição pública pela mídia.
Escândalo político, neste contexto, é a revelação de atos, fatos ou declarações comprometedores, apoiados em indícios e/ou elementos de prova parciais, configurando uma forte suspeita de ilegalidade ou imoralidade que, pelas declarações dos adversários e pelo tipo de cobertura da mídia, criam uma imediata presunção de culpabilidade.
Como na política, a percepção é mais importante que a realidade, os indivíduos tendem a julgar e fazer suas escolhas pelo que percebem. Daí a conhecida expressão que é uma lei para os políticos: seja, mas também pareça.
A reputação de um político, portanto, constrói-se, em grande medida sobre aparências, embora, se estas aparências não estiverem lastreadas numa razoável base de veracidade, elas tendem a ser, mais cedo ou mais tarde, desmascaradas.
Por isso, o significado da frase citada precisa  ser completado com a outra frase: pareça, mas também seja.
Desta forma o escândalo, tornado pauta obrigatória da mídia, em razão do interesse garantido do leitor/expectador, leva os jornalistas a se desdobrarem na busca de mais elementos sobre as acusações, em torno da pista que foi deixada pela denúncia inicial, e a veiculá-los com destaque.
Surge assim, em toda a sua dimensão o escândalo, e com ele o estigma que se associa à imagem e reputação do homem público, e pelo qual passará a ser identificado.
Por essas razões, o escândalo é tão temido.
A reputação é importante lembrar, pertence ao mundo das percepções e não da realidade. Por isso ela pertence aos outros e não ao político e, por isso ele pode perdê-la. 
Não há como sair de um escândalo ganhando, ou mesmo incólume, depois que a mídia decide dar-lhe cobertura privilegiada, e os adversários – externos e internos - dele se aproveitam por óbvias  razões políticas.
O objetivo dos políticos ao lidar com o escândalo, não é portanto necessariamente vencê-lo, e sim sobreviver a ele nas melhores condições possíveis, dentro das circunstâncias.

terça-feira, 11 de março de 2014

Como planejar sua campanha para reeleição ao Legislativo


Por Francisco Ferraz - Publicado originalmente no sitio eletrônico de Políticas para Políticos em 14/01/2014


As eleições para os cargos legislativos no Brasil ocorrem em condições mais incertas do que a disputa para os cargos nos executivos. Uma eleição para os executivos ocorre por meio da fórmula majoritária em dois turnos.
Os prefeitos, governadores e presidentes elegem-se a partir da obtenção da maioria dos votos, e podem contar com uma gama de recursos incomensuravelmente superior aos recursos disponíveis para os candidatos a vereador, deputado estadual ou federal.
Dentre tais recursos cabe destacar o tempo muitíssimo maior  nos horários gratuitos de rádio e TV, de exposição na mídia, além das pesquisas de intenção de voto, que muitas vezes são divulgadas pela imprensa sem custos para candidatos e partidos.
Para as eleições legislativas o Brasil adota  o sistema proporcional de lista aberta. Nesse sistema os partidos políticos não possuem nenhum mecanismo para controlar a distribuição das cadeiras conquistadas entre os candidatos.
A fórmula eleitoral é chamada de lista aberta porque a posição do candidato na lista depende exclusivamente da sua votação pessoal e da transferência dos votos de outros candidatos com menor votação do mesmo partido ou de um partido coligado.
Os candidatos que recebem mais votos individuais, obviamente são os que têm mais chances de serem eleitos ou reeleitos.


 A disputa pelo primeiro mandato

Por incrível que pareça, as chances de quem disputa o primeiro mandato e de quem já ocupa uma cadeira no legislativo não são tão diferentes quanto possa parecer.
A conseqüência desse fenômeno é que, a cada eleição ingressam nos legislativos um grande número de novatos que tomam o lugar dos parlamentares mais antigos.
Para que se tenha uma idéia do quanto isso representa em termos numéricos, as pesquisas acadêmicas na área de ciência política mostram que entre 1945 e1998 ataxa de renovação da Câmara dos Deputados oscilava entre 35% a 40%.
De outra parte, enquanto os candidatos aos cargos executivos precisam conquistar votos em todas regiões e segmentos do eleitorado, os que disputam uma vaga no legislativo podem dirigir-se a segmentos sociais, categorias profissionais ou regiões especificas.
Em outras palavras, os candidatos aos legislativos podem apresentar-se aos eleitores como representantes autênticos do grupo, ou dos grupos aos que se propõe representar.
Para tanto, a estratégia de campanha deve estar direcionada para os segmentos que potencialmente podem se sentir  identificados com a proposta e o candidato.
Os roteiros, as visitas, o material gráfico, os discursos, enfim todas atividades de campanha devem concentrar esforços no sentido de convencer os eleitores de que o candidato vai  trabalhar dia e noite na defesa dos interesses dos seus eleitores no parlamento.


A busca da reeleição no parlamento

A rotina no interior do parlamento, muitas vezes, afasta o parlamentar de seus eleitores e aqui entram dois complicadores a mais. O primeiro é que, quanto mais elevado for o âmbito do legislativo, maior é a distância em relação à respectiva base eleitoral, e o segundo é que os cargos de maior visibilidade pública são também os mais disputados no interior do parlamento.
O âmbito do legislativo está diretamente relacionado com a proximidade geográfica do parlamentar com os eleitores. Assim, por exemplo, um vereador tem seu eleitorado localizado no seu município o que facilita o contato “corpo a corpo”.
Já os deputados estaduais e os deputados federais são eleitos por eleitores de todo seu estado, o que exige um amplo roteiro de viagens, e com o agravante de que no caso dos deputados federais a sede do parlamento é em Brasília, portanto, fora do estado.
A ocupação de postos no interior do parlamento como mesa diretora, presidência de comissões, liderança de bancada, liderança de governo, etc, pode garantir alguns espaços na mídia, o que torna o parlamentar, uma figura pública mais visível e transmite para os eleitores a imagem do político que trabalha.
Embora escassos, esses postos representam uma estratégia disponível para a minoria marcar sua presença.
Para a maioria dos parlamentares, que não têm acesso a esses postos nem a exposição na mídia, a busca da reeleição deve ser feita através de uma estratégia de constituição de uma rede permanente de contato a fim de divulgar seu trabalho e dirigir sua mensagem na campanha eleitoral.

Os principais componentes dessa estratégia de busca da reeleição são:
- foco de ação e público alvo
- rede de contato e estratégia de comunicação
- roteiro de visitas.


Foco de ação e público alvo


Certamente você foi eleito com base em alguma proposta, seja em que área for.  A partir dessa área você deve focalizar sua atuação na Casa Legislativa. Assim, por exemplo, se você é médico deve procurar fazer parte da comissão de saúde pública.
Mesmo sem conseguir aprovar projetos, você pode protocolá-los e divulgá-los  para o público interessado.  

Rede de contatos

Definido o foco de ação e o público alvo, você deve montar uma rede de contatos com pessoas que tenham alguma ligação com o tema de sua ação no parlamento.
Com o desenvolvimento das redes sociais na internet (Facebook p.ex.) a criação de redes ficou facilitada para os usuários da web. Com a rede de contato montada, sua estratégia de comunicação deve mantê-la viva e em crescimento, para aproximar os potenciais eleitores do seu trabalho e dos seus projetos.
A internet e o correio eletrônico (e-mail) são ferramentas ágeis e baratas de comunicação o que faz com que a criação de um site pessoal ou de um Blog, e uma boa lista de pessoas para receber e-mails com “noticias do mandato” seja uma estratégia de comunicação cada vez mais útil. Todavia nem todos os seus eleitores têm acesso a Internet.    Neste caso, a utilização de material impresso e do correio tradicional ainda são úteis  ferramentas.
Por fim, o roteiro de visitas é um elemento essencial na estratégia de reeleição. Como diz a sabedoria popular “Quem não é visto, não é lembrado”. Traduzindo isso do ponto de vista de uma estratégia para a reeleição, significa que nada substitui a presença física do parlamentar junto aos eleitores.
Mas para que sua presença física tenha o impacto desejado, são  necessários roteiros bem traçados e encontros bem preparados.
O planejamento do roteiro de “visitas às bases” precisa levar em conta visitas periódicas, durante o mandato, aos mesmos locais para que não se crie a imagem do político que só aparece no momento de pedir voto.
Nesse sentido, as datas comemorativas, de caráter religioso ou não, são boas oportunidades para que os parlamentares sejam vistos. Além das datas comemorativas é importante aceitar certos convites para festas de casamento, aniversários, pois estas sempre são oportunidades para conversar com eleitores e pessoas que possam ser futuros cabos eleitorais.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Sérgio Leão é eleito conselheiro do TCM

A Assembleia Legislativa do Pará elegeu no dia de ontem o ex-secretário especial do Governo de Simão Jatene (PSDB), Sérgio Leão, conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Pará (TCM), em vaga de indicação da própria ALEPA. Leão venceu com a folgada maioria de 29 votos contra 10 votos do deputado estadual Júnior Hage (PR).

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A morte da miss

     Curiosa à comoção da imprensa brasileira com a morte da miss na Venezuela. A pergunta é se ela não fosse miss a comoção seria a mesma? E os outros mortos, porque não são mencionados?

Ademir Andrade (PSB) deverá concorrer ao governo do Pará


O cenário político eleitoral do estado do Pará vem se apresentando com elevada volatilidade. Muda a cada semana. Ninguém pode afirmar nada com veemência em relação às candidaturas postas. Prova disto é a colocação da pré-candidatura de Ademir Andrade (PSB) como postulante ao governo do estado do Pará. Até pouco tempo atrás era uma peça não mencionada. Hoje aparece como mais um postulante ao Palácio da Cabanagem. Ao que consta Ademir Andrade (PSB) apresenta a sua pré-candidatura com o objetivo de construir um palanque eleitoral para Eduardo Campos (PSB) no estado do Pará.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A indefinição de Jatene e o cenário eleitoral (VII)

    Outras duas candidaturas foram postas com ênfase recentemente. O PV marcou posição ao lançar o advogado José Carlos Lima como candidato ao governo e o PSOL, como sempre faz, lançou candidatura própria por meio da sindicalista Araceli Lemos. Tanto o PV quanto o PSOL procuram consolidar uma candidatura alternativa aos principais blocos de poder que estão se consolidando para a próxima eleição. Certamente, PV e PSOL encontrarão dificuldades de consolidas as suas candidaturas, principalmente em decorrência da falta de estrutura econômica para concorrer. Mas podem surpreender num cenário de elevado acirramento eleitoral entre os principais concorrentes.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A indefinição de Jatene e o cenário eleitoral (VI)


A incerteza de Jatene produziu na última semana mais uma mudança de perspectiva. Duciomar Costa (PTB), que era tido como candidato ao Senado, já realizou algumas reuniões nas quais anunciou a sua candidatura ao governo do Pará. O ex-prefeito de Belém está de olho numa possível polarização do debate entre o PSDB e o PMDB/PT, tentando se colocar como uma possível via alternativa. Apesar de receber muitas críticas pela gestão feita a frente da Prefeitura de Belém, Duciomar sempre fez a diferença nas campanhas em que participou como candidato ao conseguir por meio de sua estratégia de marketing eleitoral atingir a sensibilidade do eleitor. Se Duciomar conseguir reproduzir na campanha estadual o fenômeno que o elegeu deputado estatual e duas vezes Prefeito de Belém, poderá se tornar um candidato competitivo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Está tudo dominado!


Um amigo relatou que enquanto nós, simples mortais, ficamos especulando sobre as decisões do atual governador sobre a sua candidatura, no Palácio da Cabanagem, o jogo já estaria todo combinado: Simão Jatene – PSDB (governador), Sidney Rosa – PSB (vice-governador) e Mário Couto – PSDB (Senador). Golpe de mestre do tucanato paraense? Se tiver fundamento, parece que sim. Enquanto os outros se acotovelam numa composição, o PSDB praticamente vai de chapa pura. Está tudo dominado!

Nilson Pinto (PSDB), mais um nome surge no ninho tucano


No cenário de indefinição quanto à candidatura de Simão Jatene (PSDB) a reeleição, corre a notícia de que o Deputado Federal Nilson Pinto (PSDB) teria franqueado o seu nome para a disputa ao Palácio da Cabanagem. Primeiro Zenaldo, depois Pioneiro, agora Nilson Pinto, o fato é que ainda há muitos nomes no ninho tucano para serem aventados. Minha singela opinião, dificilmente o PSDB cederá a cabeça de chapa para outro partido. Mas, sou apenas um mero espectador. Como na política do Pará até “vaca voa”, quem viver, verá!

A indefinição de Jatene e o cenário eleitoral (V)


A candidatura de Helder Barbalho (PMDB), tida inicialmente como uma aposta incerta, passa a se consolidar cada vez mais no cenário posto, com pesquisas recentes mostrando que o ex-prefeito de Ananindeua está assumindo o posto, paulatinamente, de candidato a ser batido. No arco de aliança que está sendo construído em torno de Helder a vaga para o Senado estaria reservada para o PT, com Paulo Rocha sendo o nome indicado para concorrer. Ainda há dúvidas sobre quem comporia a chapa de Helder, assumindo a vaga de vice-governador. Historicamente, dentro das estratégias eleitorais construídas no Pará, a vaga de vice normalmente é reservada para representantes do interior do estado, estando, provavelmente, reservada para um terceiro partido capaz de somar força neste bloco.