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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

O intelectual errante - Mario Vargas Llosa*

 

Vez ou outra nos deparamos com ensaios que valem a pena serem lidos, debatidos e compartilhados, em especial aqueles que são escritos por intelectuais que notoriamente estão acima da média, que dispõem de um vasta e rica cultura, e que se tornam capazes de nos brindar com reflexões para além do usual, rasteiro e pobre debate contemporâneo.

Hoje me deparei com esta pérola de Mário Vargas Llosa, publicada no periódico O Estado de S. Paulo, que comenta sobre a falta que intelectuais da estirpe de Albert O. Hirschman fazem no mundo atual. Além de uma reflexão provocante, é muito interessante ver um grande intelectual tecer comentário sobre a vida, a obra e as visões econômicas e políticas de outro grande intelectual, em especial pelo fato de que, apesar de estarem em espectros ideológicos diferentes, prevalece o respeito e a admiração.

Vargas Llosa e Hirschman possuem em comum o fato de terem ambos rompido com visões revolucionárias de esquerda que os conquistaram na juventude. Mas, enquanto Vargas Llosa se tornou um renomado pensador liberal, Hirschman caminhou numa via mais desenvolvimentista – não por acaso ele é (ao lado de François Perroux e Gunnar Myrdal), considerado um dos principais autores da chamada Economia do Desenvolvimento.

Fica o convite a leitura deste ensaio que resolvi publicar em meu blog pessoal.

   

Mario Vargas Llosa* - O intelectual errante - O Estado de S. Paulo (2/2021)

Neste mundo abalado, a voz equilibrada de Albert O. Hirschman há de nos fazer falta

Albert O. Hirschman era um judeu-alemão que, assim como seus compatriotas Hannah Arendt e Walter Benjamin, parecia ter lido todos os livros e falar todas línguas. Nascido em Berlim no ano de 1915, ele fugiu em 1933 da Alemanha nazista, onde começara a estudar economia e a militar no Partido Socialista. Continuou seus estudos na França, em Londres, Trieste e se especializou em economia italiana, enquanto viajava com frequência a Paris, onde ajudou a embarcar para os Estados Unidos muitos intelectuais, professores e políticos perseguidos pelo fascismo. Durante a Guerra Civil Espanhola, ao lado de George Orwell, foi membro das Brigadas Internacionais, por simpatia ao Poum, um pequeno partido de inspiração trotskista. Acabou ferido na guerra, mas sempre se recusou a falar sobre sua experiência na Espanha. Mais tarde, seguiu para os Estados Unidos, onde, além de outros doutorados, continuou sua luta intelectual em prol do socialismo democrático.

Eu o conheci no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, uma instituição admirável, que acolheu Albert Einstein quando ele se refugiou nos Estados Unidos. Ali, os membros não precisam lecionar, apenas pesquisar. Eles dispõem da biblioteca da universidade e de recursos para organizar simpósios e conferências relacionadas aos temas em que trabalham. Hirschman não gostava de lecionar, preferia a pesquisa. Trabalhou para a Fundação Ford e para o Banco Mundial e lecionou nas melhores universidades. Viveu vários anos na Colômbia e conhecia como ninguém os problemas da América Latina (e do mundo inteiro). A Claves de Razón Práctica acaba de publicar uma nova edição de seu último livro, La Retórica Reaccionaria, em uma nova tradução que traz um excelente e extenso prefácio de Joaquín Estefanía, bem como um posfácio não menos interessante de Alberto Gerchunoff.

A obra de Hirschman não é muito conhecida na Espanha, embora o seja na América Latina, nos Estados Unidos e no resto do mundo ocidental, e muitos, como Estefanía, lamentam que ele nunca tenha recebido o Prêmio Nobel de Economia, o qual merecia pela originalidade, riqueza e amplitude de seu trabalho. Decepcionado com os grandes esquemas revolucionários aos quais aderira na juventude, defendeu a ideia de pequenos avanços econômicos e sociais, entre eles a liberdade, para garantir o progresso e abrir ao Terceiro Mundo a possibilidade de desenvolvimento e democracia política. Ao mesmo tempo que, nos seus ensaios, refletia sobre essa ação prática e “o direito de se contradizer”, ele combatia economistas liberais como Friedrich Hayek – apesar de o livro O Caminho da Servidão ter lhe causado um grande impacto – ou Milton Friedman, para não falar dos Chicago Boys chilenos que haviam se aliado a um ditador para promover as reformas econômicas que propunham.

Chegara ele à conclusão de que o comunismo estava morto e de que a única solução justa para os problemas da sociedade humana – desigualdade, exploração, ditaduras e enormes rupturas sociais – era o capitalismo à maneira escandinava, moderado pelo voto popular, pela seguridade social e por outras medidas adotadas pelo Estado para reduzir as distâncias e melhorar a condição econômica de trabalhadores e camponeses? Ele nunca o disse explicitamente, mas tenho a impressão de que sim, embora o homem sábio e culto que conheci também fosse muito prudente e não gostasse de se expor muito, pensando no meio em que vivia e escrevia.

Este livro, La Retórica Reaccionaria, começou a ser escrito na época de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que aterrorizaram populistas e progressistas de todo o mundo porque, embora conservadores, ambos os chefes de estado promoveram reformas liberais muito ambiciosas que, entre outras coisas, enterraram o comunismo e pareceram iniciar o renascimento da democracia e do capitalismo. Mas não foi assim que aconteceu, e o que veio a seguir foi, antes de tudo, um novo populismo de direita, tão nefasto quanto os populismos de esquerda, que – como aconteceu com Donald Trump nos Estados Unidos e Boris Johnson no Reino Unido – desequilibrou com sua demagogia as ideias que afirmava encarnar.

A tese de La Retórica Reaccionaria é muito simples e, segundo Hirschman, nasceu das objeções de Edmund Burke à Revolução Francesa do século 18. Em Reflexões sobre a Revolução na França, Burke argumentou que, ao contrário do que alegavam os revolucionários, as reformas promovidas pela guilhotina e pelas revoltas populares, em vez de revolucionar a sociedade na direção certa, destruiriam todos os avanços sociais e políticos alcançados até então. Essa tese, com os acréscimos sutis da perversidade, da futilidade e do risco, será repetida por uma longa lista de pensadores – entre os quais Hirschman cita o enlouquecido Joseph de Maistre, que acreditava que Deus havia mandado a Revolução Francesa para castigar os seres humanos por sua impiedade – até mesmo por economistas rigorosos como Hayek ou pelo tão moderado Isaías Berlin, que sempre defendeu uma posição muito semelhante à sua e fomentou o diálogo entre esquerda e direita.

A voz de Albert O. Hirschman há de nos fazer falta neste mundo abalado, quando menos se esperava, por um coronavírus que causou estragos quando acreditávamos que os seres humanos e a ciência haviam conquistado o mundo natural. Mas não foi assim que aconteceu e, quando a pandemia passar, os sobreviventes deste cataclismo medieval vão despertar num mundo empobrecido, no qual o Estado terá crescido em toda parte, sufocando a liberdade mais do que já sufoca, no qual os novos populismos, impregnados de racismo e nacionalismo irracional, se preparam para acabar com as últimas instituições e tomar o poder. Não será fácil, claro. A batalha será duríssima e nela poderia ter um papel fundamental alguém como Hirschman, que acreditava nas ideias e no diálogo entre adversários, que desconfiava de esquemas totalizantes, que propunha avanços modestos, sem violência e sem vítimas, resultantes de um diálogo em que os antigos inimigos chegassem a consensos e a acordos concretos.

É a mais bela postura e, em seus livros, Albert O. Hirschman a defendeu de maneira persuasiva. Era um homem decente e limpo, de enorme cultura e, quando já estava bem avançado nesse último livro – ele próprio o conta em suas páginas – percebeu que a retórica “reacionária” que descrevia também podia se aplicar, milimetricamente, a uma esquerda que, sobretudo na América Latina, era sectária e intolerante e tendia a ver as coisas de um só lado. Ele então tentou mudar o título do ensaio e trocar “reacionária” pela palavra “intransigente”, mas o editor não permitiu. No entanto, no sexto capítulo de seu ensaio, essa nova fórmula é bem explicada, e os elogios de Gerchunoff, dos quais compartilho plenamente, premiam o realismo e o senso prático de Hirschman. É de atitudes como as dele que vamos precisar nesta nova etapa incerta e nebulosa que se abre diante de nós: desconfiar das grandes configurações que prometem trazer o paraíso à Terra e promover aquilo que, por mais insignificante que pareça, faça avançar a justiça e a liberdade e retroceder a hostilidade e a política convertida em religião, onde há mocinhos e bandidos e só um deles sobreviverá. O paraíso está muito longe para que consigamos trazê-lo à Terra. Entre os ideais possíveis está algo mais modesto e eficaz, no qual Hirschman apostou: aprender a conviver, pôr fim à brutalidade, dar à democracia e à liberdade o dinamismo que perderam, salvar o que ainda é possível no sinistro panorama futuro que se desenha diante de nós. / Tradução de Renato Prelorentzou

 

*É autor de ‘Pantaleão e as Visitadoras’ e ‘Conversa no Catedral’

sexta-feira, 14 de março de 2014

Aos que desejam estudar economia


Por Hugo Eduardo Meza Pinto e Marcus Eduardo de Oliveira*


Alan Greenspan (ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos), Peter Druker (guru da Administração), Philip Kotler (guru dos Negócios Empresariais), Kofi Anan (ex-Secretário Geral da ONU), Mick Jagger (astro pop do rock), Arnold Schwarzenegger (ator e ex-governador da Califórnia), Ivan Zurita (presidente da Nestlé), Roger Agneli (presidente da Vale) e Bernardinho (técnico de vôlei da Seleção Brasileira). Essas personalidades listadas acima têm algo em comum: todos eles, sem exceção, passaram por uma faculdade de Economia.

Apesar de não exercerem a profissão de economista, certamente eles utilizaram e ainda utilizam alguns dos conceitos da ciência econômica em suas vidas profissionais ou mesmo pessoais.

Qual o motivo de comentarmos isso? Durante os últimos anos tem-se falado de maneira generalizada em Economia (enquanto ciência), principalmente sobre alguns dos conceitos que envolve este ramo do conhecimento.

Atualmente, percebe-se uma tendência em discutir conceitos econômicos na sociedade. Muito se fala, por exemplo, na importância da chamada Educação Financeira.

Nesse pormenor, já há estudos que apontam para a viabilidade de inserir conceitos sobre educação financeira na grade curricular do ensino médio. Nessa mesma linha, é comum presenciarmos em programas de TV e rádio alguém se dedicando aos diversos assuntos do universo da Economia. Não por acaso, sempre aparece especialistas no assunto, falando em tom de conselhos.

Diante disso, uma pergunta se faz oportuna: Como explicar a diminuição de demanda de estudantes pelo curso de Economia no Brasil, e em alguns outros lugares do mundo? A Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Economia (Anges) aponta para essa diminuição desde a década de 1980. Corrobora para isso os dados apresentados pelo Censo da Educação Superior Brasileira do Ministério da Educação (MEC) mostrando que somente 3,2% do total de matrículas, no Brasil, são do curso de Economia.

Nos Estados brasileiros há uma tendência dramática da diminuição de vagas preenchida para a graduação em Economia, quer seja em instituição privada ou nas universidades públicas e federais.

Talvez uma das razões disso seja o fato dos próprios economistas pecarem muito ao se apresentarem dando tons demasiadamente teóricos; pouco compreensíveis, portanto, para os não familiarizados com os jargões econômicos.

Não por acaso, nós economistas, “inventamos” até mesmo um linguajar complexo e sofisticado ("economês") na tentativa de explicar os fatos. É a linguagem tecnicista e rebarbativa, sibilina, por conceito, que, na verdade, mais atrapalha que ajuda as pessoas na compreensão dos problemas econômicos.

Para complicar ainda mais a pouca compreensão do público em geral, nós economistas acreditamos piamente no uso de modelos matemáticos para explicar quase tudo, como se as relações sociais e econômicas fossem previsivelmente exatas e, ademais, como se a vida de todos nós se resumisse a números, taxas e índices.

Ora, isto mostra, na essência, a frieza de uma ciência que, ao contrário, tem um lado de estudo muito humano, voltado a entender a sociedade em suas múltiplas manifestações, principalmente no aspecto social, mas que, por não raras vezes acaba “camuflado” nas análises pouco assimiláveis da matemática.

No entanto, ao insistirmos em teorizar de forma estritamente acadêmica e, por vezes, pouco popular, criamos com isso uma espécie de ranço na aceitação social que prejudica, sobremaneira, a imagem do profissional economista. Não raro, esses profissionais são muitas vezes vistos como arautos do apocalipse; ou o que é pior: de estimuladores e entendidos apenas de crise, de geração de caos, de confusão.

Uma segunda questão – que se alinha a primeira - sobre a dificuldade em angariar novos interessados em estudar Economia recai na pouca familiaridade em tentar explicar para a sociedade o campo de atuação do economista.

Por vezes, não somos claros em explicar que este profissional pode ocupar espaços em atividades públicas e privadas; dada a abrangência de conhecimentos sólidos que um curso de economia fornece. Esta abrangência somente é possível por se tratar de uma formação sólida que não se limita a dados técnicos, mas que abrange a discussão dos processos históricos e sociais que construíram o pensamento econômico desde os escritos seminais dos clássicos ingleses.

Conquanto, nunca é tarde para se promover mudanças. O momento que se apresenta é muito propício para tentar recuperar o interesse pelo estudo das Ciências Econômicas. A nossa profissão de economista no Brasil tem pouco mais de 60 anos de existência, desde o reconhecimento formal, regulamentada pela Lei n° 1.411, de 13 de agosto de 1951.

No entanto, nessas seis décadas, poucos foram os momentos em que professores, conselheiros, profissionais da área e estudantes se reuniram para discutir os caminhos, os valores, a missão, o propósito e a atuação do economista no exercício de suas atividades.

Excetuando-se os congressos e encontros profissionais realizados, são raros os momentos de profunda reflexão em torno do objetivo de orientar os jovens futuros economistas sobre o modo de atuar e, mais que isso, sobre como a Economia – tanto na teoria, quanto na prática – age e influencia no cotidiano das pessoas.

Outro fito de nossas palavras aqui está, justamente, em poder, de alguma maneira, contribuir para a orientação futura do jovem estudante de Economia, visando também resgatar as demandas verificadas no passado, quando se formavam muitos e muitos economistas.

Para isso, nos sentimos encorajados a esboçar algumas linhas direcionadas especificamente ao debate sobre a atuação e o papel do economista em nossa sociedade. Desnecessário afirmar, contudo, que não nos apresentamos aqui como conselheiros e/ou donos da verdade; não temos a prerrogativa do tom professoral.

É oportuno reiterar, contudo, que apenas desejamos, tão somente, contribuir para o aprofundamento de temas que cercam a natureza da ciência econômica no que toca a discorrer sobre os propósitos mais interessantes dessa ciência – para aquilo que se convenciona entender ser, de fato e de direito, uma boa e adequada maneira de “fazer economia”. O que mais queremos é que aumente o interesse pelo curso superior em Ciências Econômicas.

No sentido de discutir os propósitos da economia, um primeiro ponto a ser ressaltado é que o economista que constrói hipóteses deve, obrigatoriamente, a seguir, confrontar seus modelos com a realidade social.

Somente o mundo real poderá validar ou não suas ideias. É imprescindível não perder de vista que os modelos da economia são imperfeitos; sua verificação é aproximativa. A realidade social - em todas as suas manifestações - é passível de soluções econômicas.

Por sinal, todo problema social exige, como contrapartida, uma solução econômica. Dessa constatação emerge afirmarmos que a economia precisa, para ser aceita definitivamente como uma ciência capaz de promover boas ações, colocar o progresso a serviço dos mais pobres.

Talvez o principal papel da economia seja o de ser uma ferramenta construtiva capaz de “esboçar” uma sociedade mais bem estruturada social e economicamente. Para isto, não se deve perder de vista que atualmente um terço da humanidade continua mergulhado na miséria. E cabe à ciência econômica, à sua maneira, priorizar e combater as questões sociais mais agudas, tal qual a miséria que vitima milhões de pessoas todos os anos, todos os dias, a cada hora.

Por isso entendemos que o desenvolvimento econômico, objetivo tão caro aos valores sociais, quando proferido e ensinado pela economia em suas bases conceituais, só faz sentido se levar bem-estar (qualidade de vida) aos que mais sofrem.

Gandhi, uma das almas mais brilhantes que já pisou no planeta Terra, a esse respeito disse que “o desenvolvimento seria bom e justo somente se elevasse a condição dos mais necessitados”.

Estamos convencidos que os jovens futuros economistas precisam, nesse pormenor, ao se lançarem na busca do equilíbrio econômico-social, encarar que a justiça social é um imperativo que deve predominar sobre a produção.

O “mundo da economia” não deve, pois, ser reduzido, quase que exclusivamente, à condição de mercado, muito menos de mercadoria. Antes disto, é fundamental que todos tenham noção que existe algo de mais valioso que cerca a economia: a vida humana.

Aos jovens futuros economistas em processo de graduação, e aos que desejam se inscrever num curso superior, recomenda-se que não se recusem ao exercício de ver a sociedade tal qual (e como) ela é.

Se os economistas de hoje, de ontem e, espera-se que os do amanhã, têm uma função a cumprir na sociedade, entendemos que essa é, essencialmente, a de se envolver no processo de transformação econômica e social.

Cristovam Buarque, engenheiro de formação e economista por opção do doutorado, diz brilhantemente que “não faz sentido ser economista se não for para lutar contra a fome e a pobreza que marca a vida de muitos brasileiros”.

Entendemos que o futuro economista deve, caso concorde com essa premissa e se predisponha a lutar por uma sociedade de iguais, ter clara a ideia central que a economia precisa ser inclusiva.

Definitivamente, a economia não funciona sem a inclusão das pessoas por um motivo bem simplista: ela – a ciência econômica - é feita pelos homens e para os homens. Por fim, reitera-se que entendemos por inclusão uma vida sem dificuldades básicas; antes disso, uma vida de acesso e de oportunidades e critérios iguais, sem diferenciação de classe, cor, sexo e condição financeira.

Concordamos plenamente que a finalidade do economista e a da ciência econômica seria aquilo que Carl Menger, em seu tempo, argumentou: “a economia precisa satisfazer as necessidades humanas”.

Detalhe: não estamos nos referindo ao conspícuo. Estamos nos referindo, apenas, as ditas e conhecidas necessidades básicas: comer, se vestir, se abrigar, trabalhar, buscar a todo instante ser feliz.

A você, caro estudante que deseja ingressar no curso de Economia, sinta-se tocado no seguinte aspecto: esta ciência tem todas as ferramentas para ajudar no seu progresso e, especialmente, no progresso da sociedade.

Contamos contigo, caro estudante de economia, para a consolidação dessa árdua tarefa. Assim como a Economia (enquanto ciência) precisa de você, você também precisa da Economia (enquanto atividade) para fazer avançar a qualidade de vida de todos. O desafio está lançado. Venha estudar Economia!

Podemos lhes garantir que vale a pena estudar economia. A maioria dos economistas que sentem nas veias essa profissão não titubeia em afirmar isso. Venha estudar Economia e ajude-nos a pensar o Brasil.

(*) Hugo Eduardo Meza Pinto é economista, Doutor pela (USP). É Diretor Geral das Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba - Brasil. meza@santacruz.br
Marcus Eduardo de Oliveira é economista, mestre pela (USP), professor de Economia da FAC-FITO / UNIFIEO (S. Paulo - Brasil) - prof.marcuseduardo@bol.com.br

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A profissão de Economista no Brasil: podemos ser muito melhor aproveitados


Fernando de Aquino Fonseca Neto 

Historicamente, a profissão de economista no Brasil pode ser considerada como uma síntese de três movimentos, um desenvolvido no meio acadêmico, outro pelos formuladores, gestores e acompanhadores da política econômica e um terceiro no mercado de trabalho. No meio acadêmico, o ensino de economia tem início com a criação dos cursos de direito e de engenharia no Brasil, em meados do século XIX. Todos os cursos de direito e grande parte dos cursos de engenharia incluíam a disciplina Economia Política em seus currículos, possibilitando que as ideias, teorias e discussões da área de economia mantivessem algum espaço no país, mesmo antes da existência de cursos específicos de economia. Assim, parte da necessidade de profissionais com conhecimentos de economia era suprida por advogados e engenheiros com melhor domínio desses conteúdos, tanto nas empresas quanto nos órgãos públicos.
A política econômica, atividade típica da profissão de economista, não pode deixar de ser exercida por nenhum governo, ainda que de modo rudimentar. Essas atividades, no Brasil, foram originalmente exercidas por políticos, em geral com base em seus conhecimentos de economia obtidos nos cursos de Direito. Os formuladores, gestores e acompanhadores da política econômica aplicavam seus conhecimentos econômicos desde os primórdios do Estado brasileiro. “Um exemplo é dado pela polêmica entre Sales Torres Homem e Bernardo de Souza Franco na década de 1850 em torno do problema da emissão de moeda. Nessa polêmica, os argumentos expostos na Inglaterra, na década anterior, durante a disputa entre a Escola Monetária (representada por Ricardo, Mill e Tooke) e a Escola Bancária (identificada com Thornton e Fullarton) eram adaptados à realidade brasileira: à relação entre moeda e preços via emissões bancárias, central no caso britânico, se agrega aqui o impacto sobre o câmbio, já que a moeda brasileira vivia sob constante ameaça de desvalorização” [Conselho Federal de Economia: sessenta anos de história da regulamentação da profissão de economista, 1951-2011, pág.20-21].
Necessidades adicionais de atividades profissionais na área econômica eram supridas pelos contadores com maior habilidade nessa abordagem. Os contadores eram profissionais de nível médio, que haviam concluído o curso técnico em contabilidade e ocupavam posição de muito prestígio, numa sociedade em que muito poucos obtinham grau de bacharel. Contudo, nesse contexto, advogados e engenheiros, com interesse na área, tinham opiniões sobre questões econômicas muito mais consideradas e valorizadas na sociedade brasileira que aqueles precursores dos economistas no mercado de trabalho. Também por discriminações dessa natureza, entre os profissionais mais destacados da então chamada área comercial consolidou-se a demanda por um curso superior, com o mesmo status de cursos universitários como direito, medicina e engenharia.
Para atender tal demanda, em 1931 é criado o curso superior de Administração e Finanças, acessível aos diplomados em perito-contador ou atuário, outorgando o título de Bacharel em Ciências Econômicas. Observe-se que envolve os nomes de três profissões, mas não se tratava de nenhuma delas em particular. Na realidade, o currículo abrangia conteúdos de algumas áreas, sendo mais adequado considerar que formava um profissional que era economista e contador, com uma formação mais superficial e limitada que a atual dessas duas profissões. Esse seria o perfil julgado adequado de um profissional altamente qualificado para atuar na área de negócios, tanto nas empresas e bancos quanto no setor público.
Em 1945, o curso de Administração e Finanças é extinto, sendo substituído por dois novos cursos superiores, o de Ciências Econômicas e o de Ciências Contábeis e Atuariais, ambos acessíveis a qualquer concluinte do ensino médio. A estrutura curricular do curso de Ciências Econômicas torna-se relativamente próxima de sua atual grade, abrangendo as seguintes disciplinas: geografia econômica, história econômica, sociologia, administração, contabilidade, direito (duas), matemática (duas), estatística e 13 específicas de economia (tais como economia política, valor e formação de preços, moeda e crédito, comércio internacional e câmbio, repartição da renda nacional e sistemas econômicos comparados).
Por ocasião da regulamentação da profissão de economista, ocorrida em 1951, podia-se identificar que os três perfis exercendo esta profissão se mantinham: os economistas-acadêmicos, em geral com título de Doutor em Ciências Econômicas ou com função de professor das cadeiras de Economia em cursos de Direito e Engenharia, que se dedicavam à reflexão e ao ensino da economia, principalmente sob a perspectiva teórica; os economistas-contadores, que seriam os bacharéis em Ciências Econômicas dos cursos criados em 1931 ou em 1945, com funções na administração pública, no setor privado e nos bancos; os macroeconomistas, grande parte não diplomada em Economia, sendo advogados ou engenheiros, que atuavam nos diversos órgãos governamentais que tratavam de assuntos econômicos.
Pode-se considerar que, a partir dessa definição da estrutura curricular e da regulamentação da profissão, surge a identidade do economista profissional no Brasil. O que efetivamente define uma profissão é a especificidade de sua formação. No caso do economista, vale observar que, desde 1945, ainda antes da regulamentação, até os dias atuais, temos uma formação específica que, se mudar sua essência, a profissão passa a ser outra, ainda que mantida a nomenclatura. Então, o que há de específico e essencial na profissão de economista é a percepção objetiva do sistema econômico em seus diversos níveis, local, nacional e mundial, assim como do comportamento dos indivíduos nos mercados. Claro que nesses 69 anos a teoria e as técnicas econômicas evoluíram e foram incorporadas aos cursos de ciências econômicas, mas sempre com a finalidade de habilitar melhor o profissional nessa percepção. Disciplinas mais instrumentais e de aplicação mais direta nas atividades cotidianas do profissional são possíveis e desejáveis, mas a sua ausência não compromete a formação do economista, cuja principal habilidade é a percepção objetiva dos fenômenos econômicos.
Não obstante, vale destacar que os economistas têm sido considerados, no Brasil, inclusive por uma parte da própria categoria, apenas como economistas-acadêmicos e como macroeconomistas, possivelmente por influência de como esse profissional é visto nos EUA. Entretanto, naquele país, o título de economista é reservado apenas aos doutores em economia, que, em geral, tendem a se dedicar à área acadêmica e à formulação e acompanhamento da política econômica. Assim, “economista” no Brasil não é o mesmo que nos EUA. Aqui, refere-se também ao profissional que, mesmo sem o doutorado, possui uma formação que o habilita a desempenhar várias atividades com vantagem em relação a qualquer outro profissional. Como exemplo, podemos citar:
(i) Mercado financeiro: identificação das melhores oportunidades de compra e venda de ações e títulos, assim como das mais adequadas opções de aplicações financeiras e de financiamentos, tanto para instituições financeiras quanto para indivíduos e empresas não financeiras – requer um conhecimento da estrutura e funcionamento do mercado financeiro, assim como das perspectivas do sistema econômico e de seus mercados.
(ii) Planejamento: no setor privado, planejamento financeiro e estratégico; no setor público, orçamentos e planos plurianuais – requer a elaboração de cenários macro e microeconômicos e instrumentos para calcular e estimar resultados futuros, tais como cálculo financeiro e econometria.
(iii) Projetos: estudos de viabilidade econômica e financeira, no setor público e privado, exigem a identificação das dimensões mais apropriadas do investimento, dos momentos mais oportunos de implantação e dos ritmos de execução, que demandarão acompanhamento da conjuntura e tendências econômicas, pesquisas de mercado e instrumentos específicos de cálculo financeiro e econometria.
(iv) Perícia: sua abordagem econômico-financeira requer a utilização de instrumentos específicos e a aplicação de indicadores econômico-financeiros.
       Não se trata de sermos mais inteligentes ou talentosos. É apenas uma questão de especificidade de nossa formação, que nos favorece precisamente nas atividades em que essa formação é a mais necessária. Basta observar as grades dos cursos: aprendemos a entender os fenômenos econômicos; o contador, acompanhar as alterações financeiras de patrimônios; o administrador, técnicas de gestão; o engenheiro, aplicar as leis da natureza. Enfim, como economistas, devemos acreditar que a alocação mais eficiente desses recursos humanos seria da forma mais compatível com suas especificidades.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O problema são os economistas


De acordo com Paul Krugman, economista internacionalmente conhecido e articulista do The New York Times, hoje temos gerações de profissionais criados na crença de que a teoria keynesiana está errada. Compartilho para o debate o artigo, inicialmente publicado no jornal americano, e que foi traduzido para o português e publicado no link eletrônico da Revista Carta Capital.

O problema são os economistas
Paul Krugman

Mike Konczal defendeu recentemente no Washington Post uma tese muito boa sobre como ensinamos Ciência Econômica. Ele sugeriu que deveríamos voltar ao modo usado pelo economista Paul Samuelson, em 1948, quando escreveu a primeira versão de seu famoso manual: primeiro a macroeconomia, depois a micro. Isso, explica Konczal, daria aos estudantes uma melhor perspectiva da realidade, apesar de no final se cobrir o mesmo material.
Eu acrescentaria que os motivos por trás da ordem de Samuelson se aplicam tão bem hoje quanto em sua época. Samuelson escreveu quando a memória da Grande Depressão ainda estava fresca e os alunos queriam saber como tais coisas podiam acontecer. Como ele conseguiu fazê-los levar a sério aquela história da perfeição dos mercados, depois de tudo o que acabara de suceder? Ensinando-lhes primeiro que a política monetária e fiscal poderia ser usada para garantir o pleno emprego.
Seis anos depois do início da Grande Recessão e da recuperação não tão grande, tudo isso parece novo, mais uma vez. Mas existem alguns problemas sérios com a solução de Konczal, parte do que Samuelson fez em 1948 não pode ser reproduzido hoje.
O que Samuelson trouxe para a Ciência Econômica foi na verdade uma dose dupla de inovação, macroeconomia keynesiana mais uma nova orientação para modelos matemáticos. Na época essas coisas andavam de mãos dadas e se reforçavam mutuamente: o aparente sucesso da macroeconomia keynesiana, orientada para modelos, venceu os institucionalistas.
Hoje, os economistas mais profundamente empenhados em ver o mundo através de uma névoa de equações também tendem a ser profundamente hostis em relação a qualquer tipo de macroeconomia capaz de explicar a crise recente. Na época, Keynes também era novo e inovador. Hoje temos gerações de economistas criados na crença de que a macroeconomia keynesiana está errada. Eles não sabem o que há nela, na verdade, mas é o que lhes ensinam.
Finalmente, se a microeconomia for justificada com a alegação de que a política do governo garantirá mais ou menos o pleno emprego, o que exatamente no mundo atual o inspiraria a acreditar nisso?
Portanto, Konczal está certo sobre o que deveríamos fazer. Mas não vai acontecer.


O problema da ciência econômica são os economistas. Isso é em grande parte o que Simon Wren-Lewis afirmou em uma recente postagem online, em que fez a defesa da corrente dominante da Ciência Econômica. E eu concordo com a maior parte.
É profundamente injusto culpar a Economia dos manuais pela crise ou pela fraca reação à crise. A mania de desregulamentação financeira, por exemplo, não foi um produto da análise econômica convencional. Na verdade, ela contesta o modelo canônico das crises bancárias, que sugeria um papel crucial das garantias do governo para evitar o pânico que se autocumpre e a necessidade de regulamentação para controlar o dano moral criados por essas garantias. É verdade, poucos economistas acompanharam a ascensão dos bancos na sombra capaz de contornar as salvaguardas tradicionais, mas esse foi um problema de vigilância, não de teoria.
A teoria dos mercados eficientes, possivelmente, merece mais culpa pelo fracasso de muitos economistas em reconhecer a bolha habitacional, mas a economia dos manuais sempre apresentou a teoria como uma linha básica, e não uma verdade revelada.
Quanto a reação à crise, foi notável a determinação dos políticos em fazer o oposto do aconselhado pela macroeconomia dos manuais. Cortar os gastos quando as taxas de juro são zero, agarrar qualquer desculpa para aumentar os juros, tais políticas não equivalem a aplicar a Ciência Econômica ortodoxa. Na verdade, foi surpreendente assistir à proliferação de novos modelos recém-inventados para justificar que fizéssemos o contrário do dito pelo curso do primeiro ano de economia.
O problema, claro, é esse não ser apenas um caso de políticos nomeados, ignorantes ou de mentalidade agressiva, que ignoram a sabedoria econômica: muitos economistas de prestígio também estavam ávidos para dar as costas à macroeconomia tradicional, mesmo quando funcionava muito bem, por causa de suas inclinações políticas.
E isso, creio, diz que há algo errado na estrutura da profissão econômica. Parece que não precisamos tanto de outra Ciência Econômica quanto precisamos de outros economistas.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Impossível Fazer Previsões Precisas em economia


Compartilho a entrevista de Walter Friedman para a Revista Época (12/2013), na qual o autor destaca que em economia é impossível fazer previsões precisas. Trata-se de uma boa reflexão sobre a mania que a sociedade tem de querer que os economistas prevejam sempre o futuro.


Entrevista - Walter Friedman
Revista Época - 30/12/2013 - "É impossível fazer previsões precisas" - Josué Fucs

O historiador americano compara os economistas aos videntes e diz que muita gente se interessa por teorias malucas para tentar saber o que vem por aí.
O professor Walter Friedman, diretor do projeto de história dos negócios na Universidade Harvard, é, antes de mais nada, um provocador. Em seu novo livro, Fortune tellers (Videntes), lançado recentemente nos Estados Unidos, ele relata os primórdios da "indústria" de previsões econômicas. Compara os pioneiros da atividade e seus sucessores contemporâneos a videntes de todos os gêneros. Segundo Friedman, apesar de as previsões dos economistas não serem absolutamente precisas, elas nos ajudam a tomar decisões melhores, com base na lógica e na razão, não apenas em adivinhações. "O futuro nunca é previsível", afirma. "Isso não significa que deixaremos de tentar prever o que acontecerá."

ÉPOCA - Em seu novo livro, o senhor compara os economistas e analistas de mercado que fazem previsões econômicas aos videntes. Por quê? O que eles têm em comum?
Walter Friedman - Os videntes dão insights sobre os mistérios da vida. Os economistas fornecem insights sobre como a economia capitalista funciona, dão sentido a conceitos complexos. No final do século XIX e no início do século XX, período de que trato no livro, isso era algo reconfortante, especialmente nos Estados Unidos, onde se sucediam pânicos econômicos, que surgiam do nada. Esse pessoal ajudou a mostrar que o capitalismo não é um sistema totalmente caótico e que aquilo fazia parte de um ciclo que, de alguma forma, era previsível. Muitos dos pioneiros nas previsões econômicas adotaram o modelo usado na meteorologia. Usavam ciclos para comparar o mundo econômico ao mundo natural. Se o tempo vem em estações previsíveis, por que não poderia haver estações também na economia? Hoje, a ideia dos ciclos econômicos ainda é popular. Você vê isso o tempo todo na imprensa e em relatórios anuais das empresas. Embora não haja nada muito cíclico na economia, nos atemos à ideia de que as flutuações econômicas ocorrem em ciclos, não de forma mais ou menos imprevisível.

ÉPOCA - Em sua visão, as previsões econômicas podem ser consideradas como ciência ou não passam de bruxarias pouco confiáveis?
Friedman - Podemos dizer que elas são as duas coisas. São uma ciência, mas também exigem muita intuição. A história nos mostra que as previsões econômicas nunca são absolutamente precisas. Ao mesmo tempo, nos ajudam a tomar decisões melhores, com base na lógica e na razão, não apenas em adivinhações. Ao observar indicadores ou dados históricos, podemos ter uma ideia melhor de como as coisas mudaram ao longo do tempo. E uma forma melhor de fazer previsões do que levar em conta a posição das estrelas ou algum outro fenômeno do gênero.

ÉPOCA - É possível prever eventos econômicos? Prever o futuro da economia é diferente de outros tipos de futurologia?
Friedman - O futuro nunca é previsível. Isso não significa que deixaremos de tentar prever o que acontecerá. Só porque as previsões não são precisas, não significa que elas sejam uma perda de tempo. Em nosso esforço para prever o futuro, muitas coisas boas apareceram e se desenvolveram. O Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas dos Estados Unidos, por exemplo, fundado em 1920, foi criado para medir os ciclos da economia e dos negócios, como parte do esforço para fazer previsões. O conceito de Produto Interno Bruto (PIB) também surgiu como forma de medir a evolução da atividade econômica ao longo do tempo. A econometria, que dominou o campo das previsões econômicas no final do século XX, desenvolveu-se a partir das previsões feitas pelo economista Irving Fisher (1867-1947), o primeiro a usar equações matemáticas para tentar entender como a economia funciona. Fazer previsões é uma grande atividade. Só que não podemos confiar totalmente no que elas dizem.

ÉPOCA - É por isso que os economistas erram tanto em suas previsões?
Friedman - A economia é muito complicada. Como disse há pouco, é impossível fazer previsões precisas. Você deve observar o que os economistas fazem quando cometem algum erro. A forma como agem quando erram uma previsão é um aspecto importante para saber se são honestos. Se admitirem o erro e explicarem por que ele aconteceu, é um bom sinal. Esses são os melhores a seguir.
Agora, se eles procurarem mostrar que estão sempre certos e que algum fator externo acabou afetando suas previsões, é um problema. Alguns economistas investem muito tempo fazendo marketing pessoal. Infelizmente, esses tendem a ser os mais bem-sucedidos, embora não tenham senso de humildade e fiquem fazendo campanha para si mesmos.

ÉPOCA - Quase ninguém consegue prever os momentos de ruptura, como as crises de 1929 e 2008. Por quê?
Friedman - Os mesmos modelos básicos sobrevivem às crises. Depois de grandes rupturas como as que você menciona, alguns se tornam mais preeminentes que outros. Até 1929, a ideia de que havia ciclos econômicos fixos, mensuráveis e previsíveis, predominava. Embora eles não fossem medidos a cada sete ou dez anos, as pessoas acreditavam que era um fenômeno mais ou menos previsível. Depois de 1929, esse modelo continuou, mas perdeu seguidores. Ganhou preeminência o modelo econométrico, segundo o qual é possível adotar políticas para influenciar os ciclos de negócios. As previsões econômicas passaram a se basear mais no efeito gerado pela política econômica. Depois da crise de 2008, aconteceu a mesma coisa. Os mesmos modelos continuaram a existir, alguns com mais preeminência, outros com menos, mas até agora não surgiu nenhum modelo novo.

ÉPOCA - Com tudo isso, devemos acreditar nas previsões econômicas?
Friedman - A economia capitalista é dependente de previsões. Não pode haver uma economia se você simplesmente acreditar que o futuro é caótico. Então, independentemente de ser confiáveis ou não, continuaremos a ter previsões. A pergunta é: que previsões são melhores para você tomar decisões? Isso tem a ver com o que você acha importante para a economia ou com o que pode mudar a economia e com todo tipo de considerações pessoais. A "indústria" de previsões será sempre um negócio próspero. Não dá para ter uma economia em que as pessoas criam inovações, fazem investimentos, abrem novas indústrias, se você simplesmente acreditar que o futuro é aleatório.

ÉPOCA - Em sua opinião, as ferramentas usadas pela indústria de previsões econômicas são mais confiáveis?
Friedman - Não diria que sejam mais confiáveis, mas são mais sofisticadas do que eram. Carregam muito mais conhecimento. No início do século XX, os pre-visores desenvolveram muitas das ferramentas usadas ainda hoje, incluindo a análise técnica do crescimento econômico, a análise fundamentalista, a econometria, o uso de indicadores econômicos. Tudo isso vem daquela época, embora fosse mais primitivo do que hoje. As premissas são as mesmas. A economia também é mais complicada hoje do que era.

ÉPOCA - Parece que as pessoas estão mais interessadas em ter uma ideia do futuro desenvolvimento de eventos econômicos, mas não se importam muito com as metodologias...
Friedman - É verdade. As pessoas querem acreditar que alguém entende como a economia funciona e tem uma boa ideia de para onde ela vai. Isso é bom e ruim. É bom porque leva as pessoas a se interessar pelo assunto e a fazer a própria pesquisa, em relação aos principais indicadores econômicos. Ao mesmo tempo, é ruim, porque algumas pessoas acabam se interessando por teorias malucas em razão dessa necessidade de ter alguém para lhe dizer o que vem por aí. Falo sobre isso no livro em relação a Roger Babson, empreendedor e economista americano (1875-1967). Muitas de suas teorias não faziam nenhum sentido. Ele as baseou nos trabalhos de Isaac Newton. Quando acertou suas previsões um par de vezes, muita gente passou a segui-lo. As pessoas não tinham interesse em saber o que estava por trás de suas previsões. Acreditavam apenas que, como ele tinha conseguido acertar, acertaria de novo. Esse é o perigo. Então, acredito que, se você pretende seguir previsões, precisa saber o que os economistas levam em conta para fazê-las. Você tem de entender os métodos usados para fazer as previsões.
 
"As pessoas querem acreditar que alguém sabe como a economia funciona e para onde ela vai"

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Muro de Berlim ou Wall Street? Algumas indicações da teoria econômica


Escrito por Fernando de Aquino Fonseca Neto (*)

 As ideologias são formas alentadoras de ver o mundo, mas sua aplicação aos problemas concretos pode custar caro. O mito de que a ditadura do proletariado forjaria um “novo homem”, livre dos condicionamentos perniciosos determinados pelas relações de produção capitalistas, foi responsável por vários regimes políticos opressores, corruptos, com prisões, torturas e execuções indiscriminadas. A queda do Muro de Berlim foi um marco na desqualificação, pelo menos, do chamado “socialismo real”, hoje restrito a Cuba e Coréia do Norte. O “excesso de Estado” mostrou-se sufocante e desestimulante ao desenvolvimento das potencialidades humanas.
Dezenove anos depois, outro “muro” foi seriamente abalado, Wall Street, agora como conseqüência de um “excesso de mercado”. O chamado “neoliberalismo”, que tanto tem prejudicado o crescimento econômico e a distribuição de oportunidades entre os países pobres e emergentes, gerou uma crise financeira com efeitos bem reais no mundo desenvolvido. Para os seus defensores, nos países ainda não desenvolvidos o desenvolvimento não tem sido satisfatório porque as reformas liberalizantes não foram suficientes. Os céticos de tal receituário, todavia, têm a seu favor a hipótese que o único processo de desenvolvimento capitalista a ter êxito contando apenas com as forças do mercado foi o da Inglaterra, possivelmente por ter partido na frente.
É impressionante a parcela dos trabalhos acadêmicos de economia, ao menos nas últimas décadas, que trazem entre seus principais resultados recomendações acerca da participação do Estado na economia. No final das contas, resta a impressão de que a participação mais adequada do Estado seria uma questão de crença e estaria baseada em uma determinada concepção de natureza humana, mesmo quando os “crentes” não se dão conta. Num enfoque mais economicista, poderíamos dizer que depende dos “microfundamentos” adotados. Com tal ponto de vista, é mais fácil aceitar que as opiniões mais extremas sobre essa participação, como a “marxista” e a “neoliberal”, se apoiam em microfundamentos bastante toscos.
O que poderia ser mais utópico que todos os seres humanos se tornarem plenamente virtuosos, solidários e construtivos, após a superação do capitalismo, como profetiza o marxismo?  Por outro lado, não menos utópica seria uma sociedade constituída de unidades familiares autônomas capazes de sempre fazer as melhores escolhas, como assume o neoliberalismo. É interessante notar que ambos alimentam alta expectativa da natureza humana, de um lado a superação das atitudes destrutivas, tão presentes no comportamento humano em geral, de outro, a faculdade de fazer as escolhas, de forma autônoma e para todos os períodos futuros, que levariam a unidade familiar ao bem-estar total máximo permitido por sua dotação inicial de recursos e habilidades.
O que muitos não sabem é que a própria teoria econômica fornece muitas indicações sobre questão da participação do Estado na economia. A teoria neoclássica argumenta que, sob certas condições, o mercado alocará os recursos de modo a maximizar o bem-estar de todos os agentes, dadas as suas dotações iniciais. Observem que são admitidas duas restrições ao mecanismo de mercado: “sob certas condições” e “dadas suas dotações iniciais”. A primeira seria equivalente ao que, no jargão dos economistas, chama-se “ausência de falhas do mercado”, ao invés de considerar que as falhas estariam nos microfundamentos, os quais, quanto mais próximos do comportamento humano como de fato ele é, melhor funcionam como base para dimensionar a participação mais apropriada do Estado. Nesse sentido, avanços têm sido registrados na teoria econômica, tais como:
• Aplicações da teoria dos jogos, em que os agentes teriam um “comportamento estratégico”, onde cada um leva em conta também o que espera do comportamento dos demais envolvidos. Com isso, a hipótese de otimização individual, sem considerar as possíveis reações dos demais agentes, como assumido pela teoria neoclássica tradicional, seria relaxada.
• Desenvolvimento da economia da informação, onde a hipótese neoclássica de que os agentes têm acesso e processam corretamente todas as informações relevantes para realizar suas escolhas, também passa a ser relaxada.
• Modelos de formação de bolhas, com a hipótese de agentes heterogêneos, como o caso em que os racionais, da teoria neoclássica tradicional, passam a interagir com os chamados “agente exuberantes”, que tendem a exagerar em suas avaliações, otimistas ou pessimistas, como grande parte das pessoas no mundo real.
Tais avanços justificam a atuação do Estado (i) para regular monopólios e cartéis que praticam barreiras à entrada, decorrentes de comportamento estratégico, (ii) para manter sistemas públicos de previdência, em função das limitações dos agentes realizarem otimização intertemporal de longo prazo, e (iii) para regular mercados financeiros e de capitais, minimizando a formação de bolhas que possam ter efeitos sistêmicos perniciosos. Acrescente-se a tais inovações nas justificativas de intervenção, “falhas do mercado” percebidas há mais tempo, como os oligopólios e monopólios naturais, que também mostram a necessidade de regulação pelo Estado.
Quanto à segunda restrição, relativa às dotações iniciais de recursos e habilidades, a teoria econômica também fornece algumas indicações. Para tanto, observe-se que a principal forma de participação do Estado na economia é transferindo, compulsoriamente, recursos entre os agentes. Assim, agentes com recursos excedentes tenderão a ter parte deles apropriada pelo Estado, enquanto agentes com carência de recursos tenderão a se beneficiar da atuação do Estado de forma mais visível. Não é por acaso que os mais ricos em geral preferem menor participação do Estado, e os mais pobres desejam exatamente o inverso. Então, seria possível alguma objetividade nessa questão? Uma solução foi proposta pelo filósofo americano John Rawls, a partir do que chamou de “véu da ignorância”, que seria uma situação hipotética em que os agentes deliberariam sobre a participação adequada do Estado antes de saber as dotações iniciais que teriam.
Então, tais condições possibilitariam uma escolha objetiva, o que tenderia levar à aceitação da participação de Estado para garantir condições mínimas aos agentes com menores dotações iniciais. Esse princípio estaria plenamente ajustável à abordagem neoclássica, tendo sido incorporado com a “Função de bem-estar social hawlsiana”. Nesse contexto, essas “condições mínimas” seriam as suficientes para minimizar as desigualdades de oportunidades, pois mais que disso começaria a ser injusta com os que possuem recursos gerados com esforço e competência próprios, ou transmitidos e recebidos livremente de alguém, como os pais, para passar para outros usufruírem.
Além dessas restrições ao mecanismo de mercado, a teoria econômica dá suporte à participação do Estado com outros propósitos, dos quais se destacariam a manutenção do equilíbrio macroeconômico e a promoção do crescimento econômico. Ainda que alguns economistas discordem, a maioria recomenda um “ativismo” do Estado, tanto conduzindo a política macroeconômica para compatibilizar a demanda agregada com a capacidade produtiva da economia, de modo a condicionar o máximo de emprego dos recursos com estabilidade nos níveis de preços, quanto com políticas para incentivar os investimentos.
Neste último propósito, é interessante notar abordagens totalmente divergentes, com propostas totalmente diferentes, mas que envolvem a participação do Estado. Nesse sentido, vale citar dois trabalhos recentes: (i) Crescimento Clássico e crescimento retardatário, de um de nossos decanos, o estruturalista João Paulo de Almeida Magalhães, defendendo que o Estado direcione os investimentos, tanto públicos quanto privados, para setores e cadeias produtivas em que haja mercado sustentável em evolução; (ii) Desigualdades Regionais no Brasil, de um economista mais ortodoxo, Alexandre Rands Barros, propondo um outro tipo de intervenção do Estado, qual seja, na promoção de investimentos em capital humano como forma de induzir os investimentos em capital físico. Não é objetivo deste artigo entrar no mérito dessas propostas, mas apenas ilustrar que abordagens tão diferentes terminam recomendando a participação do Estado.
Pode-se assumir, então, que a participação adequada do Estado estaria entre a máxima e a mínima. Nessa altura, deve-se ainda descartar a crença de que a corrupção ocorre apenas quando o Estado está envolvido. Também existe corrupção dentro e entre as empresas. Assim como as falhas do mercado, as falhas do Estado precisam ser corrigidas por adequados sistemas de incentivos e de controle. Enfim, para um fechamento meio inspirado, pode-se arriscar em dizer que o mercado é, ao mesmo tempo, uma selva e um espaço libertário, assim como o Estado é, ao mesmo tempo, um Leviatã e um ente civilizatório.

(*) Doutor em economia pela Universidade de Brasília (UnB) e Presidente do Conselho Regional de Economia de Pernambuco (Corecon-PE)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Artigo: O estilo paranoico em economia


Autor: Por Raghuram Rajan - Valor Econômico - 09/08/2013
 

Por que divergências econômicas de grande notoriedade transformam-se tão rapidamente em ataques pessoais? Talvez o exemplo recente mais conhecido tenha sido a campanha de Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel, contra os economistas Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff1, quando ele passou rapidamente da crítica contra um erro em um dos estudos e passou a criticar a não adesão (da dupla de economistas) à transparência acadêmica.
Para quem conhece esses dois soberbos macroeconomistas, como eu, é evidente que estas acusações deveriam ser imediatamente desconsideradas. Mas há uma questão mais abrangente: por que o estilo paranoico tornou-se tão importante?
Parte da resposta está no fato de que a economia é uma ciência inexata, existindo exceções para as previsões de quase todos os modelos de comportamento que os economistas assumem como inquestionáveis. Por exemplo, os economistas preveem que preços mais elevados de uma mercadoria reduzem a demanda por ela. Mas estudantes de economia certamente recordam-se dos "bens de Giffen", que destoam do padrão usual. Quando tortillas tornam-se mais caras, um trabalhador mexicano pobre poderá acabar comendo mais tortillas, porque reduzirá o consumo de alimentos mais caros, como a carne.
Políticas econômicas baseadas em bom senso muitas vezes produzem consequências inesperadas, pois os alvos de uma política não são agentes passivos, como na física, mas agentes ativos que reagem de maneiras imprevisíveis.
Essas "aberrações" ocorrem também em outros mercados. Os clientes muitas vezes atribuem maior valor de uso a um bem quando seu preço sobe.
No período que antecedeu a crise financeira de 2008, os macroeconomistas tendiam a excluir o setor financeiro de seus modelos de economias avançadas. Não tendo ocorrido nenhuma crise financeira significativa desde a Grande Depressão, era conveniente assumir como certo que os dutos financeiros funcionavam adequadamente nos bastidores.
Os modelos, assim simplificados, sugeriam políticas que pareciam funcionar - isto é, até que o encanamento entupiu. E o encanamento deixou de funcionar porque o comportamento de manada - que políticas moldaram de maneiras que só agora estamos começando a entender -entupiram os condutos.
Então, por que não permitir que evidências, em vez de teoria, sejam o balizamento de política econômica? Se uma dívida nacional elevada é associada a um crescimento econômico lento, será porque o endividamento excessivo impede o crescimento ou será que um crescimento lento faz com que os países acumulem mais dívidas?
Muitos econometricistas construíram carreiras descobrindo uma maneira inteligente de estabelecer a direção da causalidade. Infelizmente, muitos destes métodos não podem ser aplicados às questões mais importantes para os formuladores de políticas econômicas. Em outras palavras, as evidências realmente não nos dizem se um país altamente endividado deveria pagar sua dívida ou captar empréstimos e investir mais.
Além disso, políticas econômicas baseadas em bom senso muitas vezes produzem consequências inesperadas pois os alvos de uma política não são agentes passivos, como na física, mas agentes ativos que reagem de maneiras imprevisíveis. Por exemplo, controle de preços, em vez de baixar os preços, muitas vezes causa escassez e o surgimento de um mercado negro onde produtos controlados custam mais.
Assim, os formuladores de políticas econômicas necessitam de enorme dose de humildade, abertura a alternativas (inclusive a possibilidade de estar errados).
Mas, para os economistas que dirigem-se diretamente ao público é difícil influenciar corações e mentes fazendo ressalvas à sua análise. É melhor, para o analista, afirmar seu conhecimento inequivocamente, especialmente se honrarias acadêmicas passadas certificam a reivindicação de know how do analista.
O lado obscuro dessas certezas, no entanto, é a maneira como ela influencia a forma como esses economistas enfrentam opiniões contrárias. Como convencer seus passionais seguidores se outros economistas igualmente credenciados têm opinião contrária? Com muita frequência, o caminho fácil passa por impugnar os motivos e os métodos do outro campo, em vez de reconhecer e contestar os pontos de um argumento adversário.
Em sua monumental pesquisa sobre séculos de endividamento público e de dívida soberana, os normalmente muito cuidados Reinhart e Rogoff cometeram um erro em um de seus textos analíticos. O erro não está em seu premiado livro de 2009.
As pesquisas de Reinhart e Rogoff mostram que de modo geral o crescimento do PIB é mais lento em ambientes de elevado nível de dívida pública. Embora haja um debate legítimo sobre se isso implica que endividamento elevado provoca crescimento lento, Krugman voltou a questionar os motivos (da dupla de autores). Ele acusou Reinhart e Rogoff de manterem deliberadamente seus dados fora do domínio público. Reinhart e Rogoff, chocados diante dessa acusação - equivalemente a uma acusação de desonestidade acadêmica - divulgaram uma refutação cuidadosa, incluindo provas na internet de que não tinham sido reticentes quanto ao compartilhamento de seus dados.
Talvez o estilo paranoico do debate público, com foco em motivações e não em substâncias, seja uma tática de defesa útil contra críticos raivosos. Infelizmente, isso também contamina o combate a diferenças mais fundamentadas de opinião. Talvez o debate econômico respeitoso só seja possível no mundo acadêmico. O discurso público resulta empobrecido por causa disso.

(Tradução de Sergio Blum)

Raghuram Rajan, professor de Finanças na School of Business, da Universidade de Chicago, foi economista chefe do FMI e vai assumir o cargo de presidente do Banco Central da Índia. Copyright: Project Syndicate, 2013.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Artigo: O bem-estar e o Economista


Por Fernando de Aquino Fonseca Neto (*)


Na série Comunicados do Ipea, em seu n°158, “2012: Desenvolvimento Inclusivo Sustentável?”, divulgado em 18 de dezembro de 2012, é inserido um indicador social para muitos ainda inusitado, “níveis de felicidade”, obtido seguindo a padronização internacional já estabelecida de solicitar às pessoas de uma amostra representativa que atribua uma nota de 0 a 10 sobre sua satisfação com a vida corrente. Apesar de algumas reconhecidas limitações na interpretação dos resultados, esses indicadores quantitativos de felicidade vêm se disseminando vigorosamente nos últimos anos.
Em seu recente livro “Felicidade S.A.”, o jornalista Alexandre Teixeira se refere a um artigo da antropóloga Susan Andrews, que chama atenção para o que considera uma epidemia de estudos sobre felicidade. Ela computa 200 artigos acadêmicos sobre o tema nos primeiros cinco anos da década de 80, contra 27.335 nos 18 meses encerrados em agosto de 2011. Certamente, não há como dissociar essa epidemia do maior questionamento da regra “mais dinheiro, mais felicidade”, decorrente do efeito-riqueza provocado pela dramática desvalorização de ativos na crise do subprime. Mas a felicidade seria passível de tratamento apenas por filósofos, psicólogos, antropólogos e sucedâneos? Não necessariamente.
Sobre felicidade, que no jargão dos economistas se aproximaria a “utilidade” ou “bem-estar”, vale realçar que em vários manuais de economia esta disciplina tem sido definida como “a ciência do bem-estar”. Eduardo Giannetti, um dos poucos economistas no Brasil que vinha explorando o tema já em 2002, em seu livro “Felicidade”, pontua que esta seria a principal finalidade da teoria econômica. “De Petty a Turgot, no Século XVIII, a Keynes, Friedman e Samuelson, poucos economistas dignos de nota discordariam”. Mas o que esse profissional, com imagem pública, e até mesmo auto-imagem, associada ao gerenciamento de carteiras de ações e títulos, planejamento econômico-financeiro, projetos de investimento e coisas do gênero teria com o bem-estar das pessoas? Essa questão não estaria mais relacionada a profissionais da área de saúde? Dependerá do enfoque. A saúde física e mental são atributos importantes para o bem-estar do indivíduo, mas não esgotam a questão muito menos garantem a melhor vida ao nosso alcance. Deste ponto, muitos se apressarão em concluir que faltaria apenas a capacidade de consumo, de onde entraria o papel do economista – elaborar e aplicar políticas que favoreçam a ampliação dessa capacidade e de seu alcance a maior número de indivíduos.
Contudo, saúde física e mental e capacidade de consumo representariam todas as condições relevantes para o bem-estar do indivíduo? É difícil ter certeza. Assim, precisamos ir além dessa postura de suprir o que presumivelmente determinaria esse bem-estar, passando a tratá-lo de modo mais direto. Nesse sentido, um marco foi o recente documento da ONU, World Happiness Report, que propõe um criterioso levantamento do que seria um “estudo emergente da felicidade”, revelando uma vigorosa participação dos economistas em tais estudos. Tomando por base o referido Relatório, das 281 referências incluídas, a maioria, em torno de 150, são do período 2008-2012, assim como também em torno de 150 referências são de periódicos ou séries da área de economia.
Com todas as dificuldades dos estudos multidisciplinares, sobretudo no que diz respeito à linguagem e peculiaridades metodológicas, chegando ao ponto de vários de seus resultados não irem muito além de uma justaposição das diversas abordagens, tem sido fundamental a participação dos economistas na exploração dessa temática. Ressalte-se o viés cartesiano de buscar identificar objetivamente as relações e quantificar indicadores de qualquer natureza, até os tão subjetivos quanto “felicidade”. O citado Relatório, editado pelo eminente economista Jeffrey Sachs, não poderia deixar de carregar tal viés.
O documento da ONU se apoia em Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002, para diferenciar duas modalidades de bem-estar, o “percebido”, acessado com indagações sobre como as pessoas avaliam suas vidas, como é o caso dos “níveis de felicidade” do citado trabalho do Ipea; e o “sentido”, aferido com o monitoramento de como os participantes da pesquisa se sentem, em pequenos intervalos, ao longo do dia, o que pode ser medido a partir de respostas ou de dosagens de determinadas substâncias no organismo. Também a partir de Kahneman, o economista André Lara Resende, em seu artigo “Bem-estar e húbris”, pontua que “Os dois conceitos só coincidem se - como assume a teoria - as pessoas desejam o que lhes dá satisfação e têm satisfação quando obtêm aquilo que desejam. Essa coincidência está por trás da hipótese de racionalidade dos agentes econômicos.(...) [Contudo,] o grau de satisfação, ou de frustração, com a própria vida depende de coisas que não estão correlacionadas com aquelas que determinam o bem-estar cotidiano”. Dentre as regularidades empíricas identificadas nessa “epidemia de estudos sobre felicidade”, vale destacar:
1. A hipótese de utilidade marginal da renda decrescente é amplamente observada, sobretudo quando se identifica que quanto mais pobre é o país, mais favoráveis os efeitos do crescimento econômico sobre os níveis de bem-estar de sua população. A partir de certos níveis de renda, os ganhos de bem-estar deixam de superar os efeitos adversos da abundância, muitos dos quais associados às condições de vida em grandes metrópoles.
2. A desigualdade de renda e riqueza importa. O crescimento da renda agregada e a redução da pobreza não bastam. A revolta decorrente da percepção de que os seus pares estão mais bem sucedidos economicamente compromete o bem-estar das pessoas de várias maneiras. Em um amplo e prestigiado estudo epidemiológico, “The Spirit Level”, Wilkinson e Pickett mostram que todos os indicadores de saúde física e emocional estão negativamente correlacionados com a desigualdade. Em “Fairness and Redistribution: the Case of Latin American Countries”, o economista Erik Figueiredo mostra que a perda de bem-estar decorente da percepção de desigualdade de renda e riqueza é ainda maior em países como os da América Latina, onde a crença de que ela decorreria de diferenciais de mérito, em termos de habilidade e/ou empenho, não estaria tão bem estabelecida. O artigo relata evidências empíricas curiosas, como a resposta à pergunta de se o entrevistado acharia justo que entre dois indivíduos, da mesma idade e profissão, realizando as mesmas atividades, um deles ganhasse mais que o outro por ser mais rápido, eficiente e confiável. 47% dos latino americanos, e 46% dos brasileiros não acharam essa diferença de remuneração justa.
3. Ainda com base nos resultados dos abundantes estudos empíricos recentemente realizados, além da pobreza e da desigualdade o “bem-estar sentido” dependeria da saúde, emprego e socialização do indivíduo, o que indica medidas complementares de promoção desses atributos. Em relação ao emprego, vale salientar que não se trata apenas da renda gerada para o indivíduo, mas também pelo sentimento de inclusão proporcionado. Tal condição foi aferida pelos níveis de bem-estar sentido pelos que estão com seguro-desemprego serem muito mais baixos do que os dos que estão empregados ganhando renda equivalente. Quanto à socialização, vale destacar medidas que melhorem a mobilidade urbana, criem espaços públicos de convivência e mantenham um policiamento eficaz.
4.  O “bem-estar percebido”, por sua vez, estaria associado a objetivos alcançados. Nessas circunstâncias, em um jogo com resultados negativos o êxito de alguns implicará em fracasso de  outros. Em grande parte dos casos concretos, como no caso da competição nos mercados, existe uma tendência de muitos perderem, os losers, e haver uma perda líquida de bem-estar. Assim, quanto mais forte for a cultura competitiva em uma sociedade, mais casos de “mal-estar percebido” ocorrerão. Observe-se que, no referido trabalho do IPEA, embora seja chamad atenção para o nível de felicidade maior no Nordeste que nas demais regiões, uma avaliação dos números revela um decolamento para baixo do Sudeste e as outras com níveis similares. Nessa perspectiva, dois determinantes podem ser importantes para tal descolamento, uma cultura e mercado de trabalho mais competitivos naquela região e as condições de vida mais estressantes nas duas maiores regiões metropolitanas do país.     
Uma questão crucial para todos os interessados na elevação dos níveis de bem-estar social é que tal agenda tem aparecido associada ao chamado “Desenvolvimento Sustentável”, como é o caso do próprio World Happiness Report. As idéias e propostas dos defensores dessa abordagem têm sido muito controvertidas. O próprio termo “sustentabilidade” vem sendo adotado com significados distintos, em geral de duas formas, para expressar “sustentabilidade temporal”, que não teria porque carregar controvérsias, e “sustentabilidade ambiental”. Mesmo neste último significado, quando se trata de combate à degradação ambiental local e à utilização racional dos recursos naturais não renováveis, pode-se identificar um certo consenso no debate público. Em relação à ideia de que a humanidade está afetando  as condições climáticas globais, inaugurando uma nova época geológica, o Antropoceno, muitos especialistas se opõem frontalmente. Desse modo, é mais prudente para os não especialistas se manterem céticos.
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(*) Doutor em Economia pela UnB e Presidente do Corecon-PE.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Artigo: Concentração e Desconcentração Industrial no Brasil

Por Eduardo José Monteiro da Costa (1)


Até a década de 1930 do século passado o Brasil era composto por diversos complexos regionais independentes. A partir desta década houve a alteração do centro dinâmico da economia brasileira para o mercado interno2 com o Estado-nacional tomando a direção do processo de desenvolvimento, principalmente a partir do Plano de Metas (1956-60)3, estimulando o processo de industrialização por substituição de importações e, conseqüente, integração do mercado nacional, no qual São Paulo assumiria notável proeminência em função de sua crescente capacidade de acumulação de capital, introdução de inovações tecnológicas e diversificação de sua estrutura produtiva4.
Este processo de concentração industrial induzido por forças centrípetas somente seria revertido no período que iria de 1970 a 1985 através do acionamento da periferia nacional por meio do aproveitamento de suas bases de recursos naturais com a implantação, ainda que tardia, da matriz industrial da Segunda Revolução Industrial no bojo do II PND. Os investimentos na periferia acabaram aumentando o grau de complementaridade com a estrutura produtiva instalada no eixo dinâmico, num processo de integração produtiva que acabou estimulando uma espécie de solidariedade entre regiões na medida em que o crescimento do centro gerava efeitos positivos na periferia5.
Este foi na verdade o fim do processo de industrialização por substituição de importações no país e o fechamento do ciclo iniciado com o Plano de Metas, que através de uma explícita política de desenvolvimento nacional e regional, e uma ação estruturante – na implantação da infra-estrutura econômica, na concessão de incentivos fiscais e creditícios, e nos investimentos produtivos diretos – promoveu a desconcentração industrial6, intensificando a integração do mercado nacional e dando maior coesão ao sistema econômico nacional7.
Fato que não pode ser relevado ao segundo plano é que no mesmo período em que houve um processo de desconcentração industrial8, refletido na mudança de pesos relativos dos diversos produtos internos estaduais, dentro do estado de São Paulo também ocorreu um processo de desconcentração da indústria da Região Metropolitana em direção ao interior paulista9.
A partir da segunda metade dos anos 1980 em diante houve uma forte reversão neste quadro. A difusão do ideário neoliberal foi aos poucos colocando para fora da arena as políticas estruturantes pensadas em macro-escalas. A partir deste período a localização produtiva passou a ser cada vez mais ditada pela ótica da acumulação privada, inaugurando-se um período de concorrência entre localidades para atração de investimentos privados, tendo como um de seus principais sintomas a “Guerra Fiscal”. O motor do crescimento deixa de ser a integração ao sistema econômico nacional e passa a ser a integração direta, sem mediação, ao fluxo internacional de acumulação do capital, o que contribuiu para a ampliação da heterogeneidade estrutural inter-setorial, intra-setorial (entre empresas exportadoras e não exportadoras) e intra-firma (entre produtos de linhas de produção “atualizados” e tradicionais)10. Neste momento a solidariedade regional, o fortalecimento de um sistema econômico nacional e as relações das regiões com suas hinterlândias são excluídas do vocabulário dos planejadores públicos, posto que num mundo cada vez mais “sem mediações” a lógica passa a ser a sobrevivência das localidades mais aptas dentro da “seleção natural” dos espaços pertinentes, numa economia global binária composta por territórios conectados e excluídos.
Como resultado a partir de 1985, e de forma mais acentuada depois de 1989, ocorreu uma reversão no processo de desconcentração industrial e, principalmente, o interior paulista passou a apresentar um aumento de sua participação na produção industrial, fundamentalmente em produtos com maior intensidade tecnológica11. A convergência da renda nacional que estava em curso também é estancada em decorrência da redução dos fluxos migratórios de longa distância e da crise econômica nacional que impactou a dinâmica de crescimento da economia brasileira e, conseqüentemente, o processo em curso de convergência das rendas regionais.
A década de 1990 testemunha a implantação das políticas do Consenso no Brasil – abertura comercial e financeira, privatização de ativos públicos, ajuste fiscal, redução da atuação do Estado e busca da estabilidade macroeconômica, dentre outras – e o ocaso das políticas de desenvolvimento regional e da visão de cooperação federativa com o Estado-nacional deixando de ser instrumento de fomento do desenvolvimento de sistemas produtivos regionais e da integração nacional. Isto, de acordo com diversas leituras, acaba agravando o processo de concentração industrial na economia brasileira12.
Para Wilson Cano13 os principais fatores que contribuíram para o processo de inflexão da desconcentração foram: o ocaso das políticas de desenvolvimento regional, principalmente a partir do governo Collor; a abertura comercial que afetou diversas cadeias produtivas tanto no ramo industrial (eletrônicos, bens de capital, têxtil, confecções, brinquedos, autopeças, bebidas, alimentos etc.), como no agrícola (trigo, algodão, leite etc.); a debilidade fiscal e financeira dos governos estaduais e federal, que causou acentuada queda nos investimentos relacionados a infra-estrutura econômica, o que prejudicou sensivelmente a periferia nacional; a diminuição do ritmo de crescimento das exportações de manufaturados de indústrias tradicionais e de tecnologia “madura”; a sensível diminuição dos preços reais dos produtos básicos; e a localização recente em São Paulo dos principais investimentos em informática, microeletrônica, telecomunicações e automação direta.
Conforme Clélio Campolina Diniz14 este processo de reversão da polarização pode ser desagregado em dois períodos básicos, um primeiro com relativo espraiamento dentro do espaço econômico do estado de São Paulo, e um segundo dentro de uma região geográfica mais ampla na qual estariam se concentrando os setores de alta tecnologia, formada por um polígono definido pelo interior da área que vai de Belo Horizonte – Uberlândia – Londrina/Maringá – Porto Alegre – Florianópolis – São José dos Campos – Belo Horizonte.
Tentando explicar os motivos da perda de dinamismo da RMSP frente ao interior paulista e a área do polígono, Diniz e Crocco15 destacam de um lado as pressões de custo da área metropolitana de São Paulo e de outro o desenvolvimento da infra-estrutura e das economias de aglomeração em outras cidades e regiões como condicionantes da localização industrial – na medida em que a busca pela eficiência produtiva e pelo aumento da produtividade como forma de enfrentar a competição internacional tenderia a beneficiar as regiões com melhores infra-estruturas, mercado de consumo e de trabalho. A análise dos autores caminha para a conclusão de que o processo de reestruturação relacionado com as mudanças tecnológicas e organizacionais acaba sendo um limite à desconcentração macro-espacial, retendo o crescimento em cidades de médio porte, próximas às grandes capitais do Centro-Sul ou mesmo em áreas metropolitanas de menor dimensão dentro desta região. Ou seja, existe um campo aglomerativo exercido pela economia paulista que não deixa que o desenvolvimento se espraie para além da área poligonal.
Esta visão é também encontrada em Diniz e Gonçalves16 que afirmam que a capacidade de gerar e assimilar inovações no Brasil é heterogênea porque fatores locacionais dos quais dependem os setores de tecnologia avançada estão distribuídos de forma muito diferenciada entre as regiões e as localidades, gerando desigual potencial de pesquisa e dificultando a desconcentração industrial. Haveria, desta forma, três grandes regiões no Brasil, uma dinâmica, composta pelo Sul e Sudeste do país, na qual está localizada a maior parcela da produção industrial, a maior base acadêmica e de pesquisa, a rede urbana mais integrada e os centros industriais mais dinâmicos; uma deprimida, correspondente ao Nordeste, que abriga quase um terço da população brasileira, mas que apresenta baixos níveis de desenvolvimento econômico, em que pese a existência de “ilhas de modernidade”; e uma vazia, formada pelo Centro-Oeste e Norte, que se caracterizam como fronteiras agrícolas e minerais, sem potencial, contudo, para o desenvolvimento de indústrias intensivas em conhecimento17.
Leonardo Guimarães Neto18 procurando analisar os impactos regionais da globalização e da maior exposição da economia nacional à concorrência internacional, bem como os impactos espaciais da vigência de um novo padrão tecnológico, afirma que as atividades econômicas deverão voltar a se concentrar nas regiões de maior industrialização justamente por estas possuírem níveis mais alto de renda por habitante, maior capacidade tecnológica e centros de pesquisa e recursos humanos mais qualificados. O autor alerta, ademais, para a intensificação dos níveis de tensão no pacto federativo, cada vez mais frágil, provocado por um “novo regionalismo”. Conforme Guimarães Neto19: “Com a infra-estrutura econômica deteriorada há anos, acumulando contingentes de subempregados, com uma evolução econômica caracterizada pela ausência de taxas significativas de crescimento ou persistência de taxas muito reduzidas ou negativas de expansão, as regiões, através de seus grupos econômicos e políticos partiram para uma disputa que tende a intensificar, cada vez mais, os níveis de tensão no quadro de um pacto federativo cada vez mais frágil”.
Carlos Américo Pacheco20 caminha em análise paralela. Para o autor, o esgarçamento do tecido federativo, ou como é chamada por ele a “fragmentação da nação”, é um processo em andamento na medida em que estaria ocorrendo um contínuo processo de rompimento dos nexos de solidariedade entre as regiões que foram fundamentais para a criação de um grande mercado interno ao mesmo tempo em que soldou os diversos interesses conflitantes da nação. No novo contexto as cidades médias situam-se no centro do debate na medida em que grande parte das vantagens competitivas depende de fatores sistêmicos como as “externalidades construídas”21.
Outro autor, Aurílio Caiado, afirma que nos anos de 1990 houve um processo de estancamento da desconcentração industrial, havendo mesmo pequena reconcentração de alguns setores em São Paulo, principalmente nos de maior complexidade tecnológica. Para Caiado o capital industrial no Brasil ainda é comandado a partir de São Paulo – além de reafirmar a centralidade da RMSP na produção industrial, segundo ele local da maioria das sedes dos grandes conglomerados industriais, financeiros e de serviços – na medida em que continua a prevalecer a lógica privada de localização industrial, por natureza concentradora, ao mesmo tempo em que inexiste uma política de desenvolvimento regional para as regiões atrasadas.  Em que pese isto, o autor contesta o argumento do desenvolvimento poligonal lembrando a existência de áreas dinâmicas fora do “Polígono do Campolina” e áreas deprimidas em seu interior22.
Na análise de Aurílio Caiado23 com o fim dos instrumentos de desenvolvimento regionais os investimentos privados têm definido sua localização com base em vantagens locacionais ditadas pelo mercado e pelos instrumentos de guerra fiscal24, o que tem promovido uma reconcentração dos investimentos no centro dinâmico, com alguns casos de desconcentração em setores específicos, notadamente naqueles intensivos em mão-de-obra25.
Com base neste breve survey é possível afirmar que apesar de não haver o “vazio econômico” apregoado por Clélio Campolina Diniz e contestado por Aurílio Caiado, há de se salientar que as estruturas econômicas e o grau de consolidação dos sistemas produtivos regionais são muito desiguais entre as regiões Sul e Sudeste e o restante do Brasil. Desta forma, em que pese a existência de um relativo interregno de desconcentração industrial no país, não houve efetivamente o deslocamento do centro dinâmico e a economia brasileira continua caracterizada por elevada desigualdade e heterogeneidade inter-regional, com as regiões Norte, Nordeste e Cento-Oeste enquadrando-se como regiões periféricas do capitalismo nacional.
Por outro lado, como salienta Plínio de Arruda Sampaio Júnior26, o Brasil da forma como está exposto ao processo de globalização está sujeito a forças centrífugas que tendem a segmentar e fragmentar o espaço econômico nacional entre as regiões que conseguem encontrar nichos de mercado, fundamentalmente regiões que conseguem incorporar inovações tecnológicas em suas cadeias produtivas, e regiões que, marginalizadas do comércio internacional, tendem a ser desarticuladas em parte estanques, fechadas sobre si mesmas.


Notas
[1]  Doutor em Economia pela Unicamp,  professor da UFPA e Conselheiro Efetivo do COFECON.
[2]  Furtado (1959).
[3]  É importante esclarecer que do ponto de vista de história econômica brasileira o processo de industrialização restringida, que se inicia em 1929 e estende-se até o período imediatamente posterior ao fim da Segunda Guerra, teria ocorrido muito mais em decorrência de fatores externos – constrangimentos da guerra e estrangulamento cambial – do que propriamente devido ao dirigismo estatal. Fato que mudaria com o Plano de Metas de JK, que inauguraria o período de industrialização ampliada e que se estenderia até o ocaso do II PND. 
[4]  Para Lessa (1981) o Plano de Metas era ambicioso nos diversos objetivos setoriais, e se constituiu na mais sólida decisão consciente a favor da industrialização na histórica econômica do Brasil. O plano tinha como prioridade a construção dos elos superiores da pirâmide industrial verticalmente integrada e, para isto, vinha acompanhado por uma série de investimentos na infra-estrutura econômica de apoio. Esse amplo programa de investimentos em que pese ter reforçado a concentração econômica de São Paulo, também promoveu a integração produtiva com o restante do país por exigir u’a maior complementaridade entre a base de recursos naturais e a indústria.
[5]  Egler (1993).
[6]  No período que se estende de 1970 até 1985 somente São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco tiveram perda de participação relativa em relação ao total do PIB nacional.
[7]  Conforme salienta Caiado (2002: 1): “... o acentuado processo de desconcentração espacial da produção no Brasil – notadamente da industrial – que se manifestou entre 1970 e 1985, em sua maior parte, teve como determinantes maiores e inequívocas ações de intervenções do Estado, cujas raízes remontam ao início da década de 1960, com a criação de novos instrumentos e novas instituições de desenvolvimento regional. Suas ações estruturantes puderam intensificar o processo de integração produtiva do mercado nacional (1962/1985) e, com isso, alcançar maior “soldagem” do movimento das diferentes economia regionais, ao movimento geral da dinâmica de acumulação da economia nacional.” [grifo do autor].
[8]  Conforme Caiado (2002: 20), a retração de São Paulo deveu-se mais a implantação de novos investimentos em outros estados. Já o Rio de Janeiro prosseguiu seu retrocesso iniciado em décadas anteriores. Pernambuco, por sua vez, sofreu de forma direta o impacto da integração produtiva, o que reduziu a sua área de influência comercial e logrou um efeito de destruição sobre parte de seu parque produtivo, além de não ter recebido grandes projetos no período.
[9]  Este fato pode ser explicado, segundo Caiado (2002: 19 e 27) em decorrência: (i) das políticas estaduais de interiorização da indústria e de atração por parte dos municípios, com elevados investimentos em infra-estrutura (rodovias, melhorias no transporte ferroviário, implantação de distritos industriais); (ii) das restrições ambientais e o fortalecimento das atividades sindicais na RMSP, aliados ao surgimento de deseconomias de aglomeração, que inibiam novos investimentos na metrópole e tornavam o interior mais atrativo; (iii) da articulação da moderna agricultura com os setores industriais, responsáveis pelo surgimento de inúmeros complexos agroindustriais; (iv) de alguns investimentos industriais realizados pelo governo federal em alguns municípios paulistas, com forte irradiação para diversos ramos industriais (petróleo, petroquímica, siderurgia, telecomunicações, microeletrônica, em setores de tecnologia militar e aeroespacial, além de diversos institutos de pesquisa); (v) incentivos ficais; e (vi) existência de uma rede urbana consolidada com um amplo mercado consumidor. 
[10]  Laplane e Silva (1994).
[11]  Os anos que se estendem de 1985 a 1989 é denominado por alguns autores de “período de agonia da política nacional de desenvolvimento”.
[12]  Cabe salientar que não se pretende aqui aprofundar um discussão sobre esta temática. Contudo, é conveniente para a análise a ser desenvolvida posteriormente a respeito dos arranjos produtivos, apresentar em linhas gerais algumas importantes proposições analíticas.
[13]  Cano (1998).
[14]  Diniz (1993).
[15]  Diniz e Crocco (1996: 84).
[16]  Diniz e Gonçalves (2000).
[17]  Aurílio Caiado (2002: 125 e 126) concorda com os autores em relação ao fato da indústria do conhecimento se localizar junto às grandes metrópoles e cidades médias. Contudo para o autor a “divisão territorial não é tão rígida e não existe ‘vazio econômico’ no NO e CO, pois, além da Zona Franca de Manaus existem instituições de pesquisa e universidades atuantes na região.”
[18]  Guimarães Neto (1997).
[19]  Guimarães Neto (1997: 61).
[20]  Pacheco (1998).
[21]  Pacheco (1993: 19) e Pacheco et alli (1993).
[22]  Para Caiado (2002: 124): “Quanto ao argumento de que a desconcentração ficou parcialmente contida no ‘polígono’ de Belo Horizonte ao Rio Grande do Sul, vale lembrar que, desde os anos 70, quando iniciou-se esse processo de desconcentração, até o começo da década de 1990, ampliou-se o número de regiões e áreas com algum dinamismo induzido pela indústria, inclusive no segundo qüinqüênio dos anos 80 e nos anos 90. Os investimentos no Programa Grande Carajás, com desdobramentos na indústria extrativa mineral do Pará e na metalurgia, no Maranhão, são exemplos desse processo, no final da década de 80, e a expansão da produção industrial no Centro-Oeste, exemplo dos anos 90 (...) Aliás, o complexo minero-metalúrgico do Maranhão foi instalado neste período, com grande impacto na estrutura produtiva regional. Some-se, também, as indústrias de celulose e metalúrgica, nos Espírito Santo, a têxtil e calçados, no Ceará, química, petroquímica (Camaçari) e celulose (Bahiasul) na Bahia, e agroindústria, no Centro-Oeste (com destaque para o complexo de soja no Mato Grosso e de carnes e rações animais, no sul de Goiás – Rio Verde) e tem-se a constatação da ampliação das áreas com algum dinamismo econômico (as chamadas “ilhas de prosperidade”) no país, mesmo nos anos de crise econômica (...) Não pode ser esquecido, também, que a ‘área poligonal’ contém regiões com crescimento econômico baixo e áreas deprimidas. É o caso do Vale do Ribeira, que engloba áreas de São Paulo e Paraná, e parte da região paulista do Vale do Paraíba, vizinha ao Rio de Janeiro, que ficaram à margem dos grandes ciclos econômicos industriais e continuaram com baixo dinamismo em todas as etapas da industrialização.”
[23]  Caiado (2002: 94 e 95).
[24]  A guerra fiscal tem se constituído praticamente no único instrumento de alteração das vantagens locacionais existentes atualmente no centro dinâmico da economia brasileira.
[25]  Caiado (2002: 96) destaca que cerca de 30% dos investimentos anunciados no Brasil para o período 1997-2000 localizavam-se em São Paulo, e mais de 50% no Sudeste. 
[26]  Sampaio Jr. (1999: 33).
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