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sábado, 27 de julho de 2013

OS SETE PECADOS CAPITAIS: A IRA



 Isaltino Gomes Coelho Filho

 Mira y López classificou a ira como “o gigante rubro”. Junto com o medo, o amor e o dever ela forma os Quatro gigantes da alma, título de sua obra clássica. Se o orgulho, que é o culto a si mesmo, encabeça a lista dos pecados, caminhando pari passu à ambição (“Sereis como Deus”), a ira é, cronologicamente, na Bíblia, o segundo pecado: “Caim ficou furioso” (Gn 4.5), e “Então, o Senhor perguntou a Caim: Por que te iraste?” (Gn 4.6). A ira está presente desde os albores da humanidade. E sempre com maus resultados.
A ira é o pecado que gera o assassinato (1Jo 3.15). Costuma-se dizer que ela é má conselheira, porque priva a pessoa da razão e a coloca sob o domínio dos instintos. A pessoa perde a noção de valores, de regras de conduta, e assume um comportamento ensandecido. A ordem de Saul para que Doegue matasse 85 sacerdotes e depois homens, mulheres, crianças, bebês e até os animais de Nobe, mostra como a ira enlouquece (2Sm 22.17-19). Este trágico episódio na vida de Saul deixa claro que a ira leva a pessoa a agir como animal descontrolado. Ela perde toda a sua racionalidade.
Sucedeu a mesma coisa com seu xará, no Novo Testamento. Atos 9.1 registra que Saulo “respirava” ameaças contra os discípulos de Jesus. O grego é empneo, cuja forma verbal pode levá-lo a ser traduzido, sem forçar a situação, como “bufava”, respiração típica do animal selvagem. Curiosamente, Jesus lhe afirmou que ele se comportava como animal, na expressão “recalcitrar contra os aguilhões” (At 26.14), a figura do boi que escoiceava o ferrão que o impelia no serviço. O zelo religioso de Saulo se transmutou em ira descontrolada (“cada vez mais enfurecido contra eles”, disse ele – At 26.11). Muito zelo religioso nada mais é que ódio, ira, fúria contra os discordantes. É “zelo, mas não com entendimento” (Rm 10.2). É uma advertência muito séria porque, em algumas ocasiões, a defesa da fé ou do que a pessoa julga ser a doutrina correta, é feita com ódio. Algumas apologias exsudam ira. Como disse alguém: “Nunca os homens fazem o mal com tanto entusiasmo como quando o fazem em nome de Deus”.
É triste, mas é verdade: temperamentos não controlados pelo Espírito (nada a ver com o livro homônimo – é que a expressão é correta) usam o evangelho como pretexto para dar vazão à sua carnalidade. A violência verbal desancando irmãos que pensam de maneira diferente não é santidade. É pecado. Lembra-me de um personagem de Umberto Eco, ironizando as querelas teológicas dos cristãos: “percebi quanto os cristãos podem se esfolar uns aos outros, por uma simples palavra” (Baudolino, p. 35). Certa vez, preguei em uma igreja e expendi um conceito que o pastor julgou ser arminiano.  Tornei-me, aos seus olhos, “cão pirento”, como se diz no Amapá.  Ele se recusou a me levar à saída, após o culto, e virou-me as costas quando fui cumprimentá-lo. Foi zeloso com sua doutrina, e iracundo no seu procedimento. Um exemplo da típica espiritualidade deformada, mas chamada, muitas vezes, de “ira santa”. O episódio de Jesus expulsando os vendilhões do templo é o trecho bíblico mais apreciado pelos santos iracundos e o eixo hermenêutico que dá suporte à sua postura.
A virtude que se antepõe à ira é a paciência. Que não deve ser confundida com resignação. O melhor termo para ela é makrothymia, uma extraordinária capacidade de suportar situações adversas. Não é superthymia, grande capacidade, mas makrothymia, enorme capacidade. Como um macromercado é maior que um supermercado. O termo alude a uma enorme disposição de sofrer o mal sem revidar. Jesus foi macrotímico: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a boca; como um cordeiro que é levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is 53.7).
Tiago orientou seu público: “Chamamos felizes os que suportaram aflições. Ouvistes sobre a paciência (makrothymia) de Jó e vistes o fim que o Senhor lhe deu. Porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão” (Tg 5.11). Fala-se da paciência de Jó, mas ele não foi paciente, no sentido de passividade de aguentar calado. Queixou-se por todo o livro. Mas manifestou uma enorme capacidade de suportar tudo. Um bom modelo. Há igrejas que se dividem por causa da ira dos crentes, por absoluta falta de makrothymia. Há dissensões na denominação pelo mesmo motivo. Suportar o mal está fora de moda. O negócio é “bateu, levou”. Aliás, um bispo televisivo avisou à Globo, certa vez, que com eles não tinha “essa de dar a outra face”. Com eles era “bateu, levou”.
A ira é pecado, e não virtude. Sua ausência, sim, é virtude. “A ninguém devolvei mal por mal” (Rm 12.17), e “Abençoai os que vos perseguem; abençoai e não amaldiçoeis” (Rm 12.14). A troca de ofensas, tão amiúde na liderança evangélica, mormente pela mídia, é uma vergonha para o evangelho. Não parecem santos, mas arruaceiros de bar.
Peçamos graça a Deus para vencermos nossos sentimentos agressivos contra as pessoas, e que sejamos cada vez mais parecidos com Jesus. Caim se irou e matou seu irmão, porque era do Maligno (1Jo 3.12). Jesus pediu perdão pelos inimigos, porque era o Filho de Deus (Lc 23.34). Mais tarde, mostrando que se tornou filho de Deus, Estêvão pediu que seus assassinos fossem perdoados (At 7.60). Os filhos de Deus não se regem pela ira, e com a graça do Senhor a superam. Cultivam o perdão, ao invés de acalentar a ira.

sábado, 20 de julho de 2013

OS SETE PECADOS CAPITAIS: SOBERBA



Isaltino Gomes Coelho Filho

Os sete pecados capitais são tão antigos como a humanidade. Foram formalizados com este título no século VI, pelo Papa Gregório Magno, que se baseou nas cartas paulinas. Ele os definiu como sendo sete: gula, luxúria, avareza, ira, soberba, preguiça e inveja. Mas foi a Suma Teológica de Tomás de Aquino que os estabeleceu definitivamente na teologia católica. Ninguém precisa me acusar de católico ou de ecumenista por abordar este assunto. Não estou defendendo a teologia católica e não me interesso por Gregório. É triste ter que fazer defesa prévia, mas há gente que caça heresia em tudo, e assim já me defendo. Comento os pecados. Porque não são pecados católicos. São universais, encontradiços em nosso ambiente, também.  Receberam o rótulo de “capitais” por causa do latim caput, “cabeça”.  A ideia é que eles encabeçam os demais, que derivam deles. Para Aquino, o principal deles era a soberba, ou o orgulho. Afinal, a gênese do primeiro pecado foi a soberba: “sereis como Deus”.
A Igreja, para contrabalançar os pecados capitais, elaborou uma lista de sete virtudes capitais, que a eles se oporiam: humildade, disciplina, caridade (amor), castidade, paciência, generosidade e temperança. Estas virtudes derivam do poema Psychomachia, escrito por Prudêncio. Ele descreveu uma batalha entre as boas virtudes e os vícios malignos. A popularidade deste trabalho no período medieval divulgou este conceito pela Europa. A ideia é que a prática dessas virtudes protegeria o fiel contra as tentações dos sete pecados capitais. Cada virtude corresponderia a um pecado: humildade x soberba; paciência x ira; castidade x luxúria; generosidade x avareza; caridade (amor) x inveja; disciplina x preguiça; temperança x gula. Mas os pecados se tornaram mais conhecidos.  A Ordem DeMolay, uma organização maçônica para jovens de 12 a 21 anos, também elaborou uma lista de sete virtudes, que são essenciais no cumprimento de seu primeiro grau. Mas seu teor se assemelha mais ao escotismo que a questão teológica. Por isso, deixemo-los de lado.
A soberba é tão antiga quanto o homem. O teólogo Manson (e com ele outros mais) definiu a essência do pecado como sendo o egoísmo. Numa frase de Billy Graham: “Cunhamos em nossas moedas In God we trust (Confiamos em Deus), mas nos nossos corações escrevemos Me, first (Eu primeiro)”. Foi o desejo do coração humano: “Sereis como Deus” (Gn 3.5).  Foi o pecado da arrogante Nínive: “A soberba do teu coração te enganou…” (Na, v. 3). Foi a soberba de Babilônia que a derrubou (Is 14.11). E, se entendermos (o que não está em discussão aqui) que Isaías 14 alude à queda de Satanás, foi sua soberba que o derrubou.
A soberba de Saul foi ferida quando as mulheres deram mais valor a Davi que a ele (1Sm 18.6-9). É significativo que o redator de 1Samuel, imediatamente após a crise de soberba de Saul, insira a nota que no dia seguinte um espírito mau se apoderou dele (1Sm 18.10). A soberba está bem perto do Maligno.
A soberba é muito encontrada em nosso meio. O orgulho de ter uma função denominacional de relevo, que torna o obreiro importante. Ou de pastorear uma igreja com muitos membros e orçamento elevado, não sendo um pastor de igreja pobre, sem expressão. De descender de família dona de igreja ou importante na denominação. Minha esposa se lembra até hoje de quando trabalhou na Casa Publicadora Batista e uma líder feminina lhe ter perguntado, com certo desdém: “Mocinha, você é filha de quem?”. Era o orgulho de ter um sobrenome de família nobre na denominação. Meacir respondeu: “De meu pai e de minha mãe!”. Quanto líder se julga a quarta pessoa da Trindade, gente tão importante, sem a qual a denominação morreria! Que é isso, senão soberba?
A virtude que se lhe antepõe é a humildade. Se a soberba mencionada em Isaías 14 alude à de Satanás é questão que pode ser discutida. Mas a humildade com que Jesus se conduzia não pode: “Eu, porém, estou entre vós como quem serve” (Lc 22.27). A empáfia de presumir-se grande personagem é a atitude de feiticeiro falsamente convertido, como Simão, que “afirmava ser de grande importância” (At 8.9). Mas o servir é próprio de Jesus. “Se eu, Senhor e Mestre, lavei os vossos pés, também deveis lavar os pés uns dos outros. Pois eu vos dei exemplo, para que façais também o mesmo” (Jo 13.14-15). Ele é o exemplo, e não Saul. Nem o personagem de Isaías 14.
Evitemos a soberba. De ser um pastorzão de primeira linha. De ser um crente que é o sustentáculo da igreja. De ser um teólogo genial. E a soberba coletiva, da igreja que presume ser a melhor igreja do mundo, a mais certa, a única que é digna de ser igreja! Como há igreja arrogante!  A igreja de Laodicéia pensou assim a seu respeito, mas Jesus estava do lado de fora dela (Ap 3.20).
Não estou teologizando, mas sendo devocional. Evitemos a vaidade. Principalmente a espiritual, que é um dos maiores non sense possíveis. O caráter de Jesus deve ser o nosso: “… sou manso e humilde de coração” (Mt 11.28) e “Bem-aventurados os humildes…” (Mt 5.5).][