A notícia de que determinada associação de indígenas tutelada por ONGs ambientalistas está pedindo intervenção do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na Amazônia é de um lado inquietante e de outro jocosa. Inquietante, pois sabemos que no contexto geopolítico mundial a real preocupação de muitas nações não é verdadeiramente com a situação dos povos indígenas, mas com a real possibilidade de exploração da ainda não totalmente inventariada riqueza em recursos naturais existentes na região. Os indígenas, como sempre, são apenas o pretexto. Inocentes úteis nas mãos de interesses econômicos maiores. A ironia decorre do pedido de ajuda para um país que dizimou tragicamente os seus povos originários com a erradicação dos indígenas se constituindo em uma política estimulada pelo Estado. O que eles têm a nos ensinar?
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terça-feira, 30 de março de 2021
INDÍGENAS, AMAZÔNIA E INTERESSES INTERNACIONAIS
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Pesquisa na Amazônia
A
desigualdade regional brasileira está expressa cabalmente no Orçamento Geral da
União quando o assunto é recursos destinados à pesquisa. Do total 89,2% estão
concentrados no Sul e Sudeste do país; 6,3% no Nordeste; 3,4% no Centro-Oeste;
e apenas 1,1% na Região Norte do Brasil. Assim, a Amazônia permanece no centro
dos interesses internacionais e na periferia do interesse do Brasil.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Transposição das águas do Rio Amazonas
Algumas
semanas atrás, com as notícias sobre o estado crítico de abastecimento de água
no Sudeste, brinquei com alguns amigos de que não tardaria para alguém propor a
transposição das águas do Rio Amazonas para o Sudeste brasileiro. Fiz uma
brincadeira em tom de ironia frente ao perverso pacto federativo que a
federação brasileira vem impondo a Amazônia como um todo e ao Pará em especial.
Tenho ironizado que o Pará foi convidado para entrar no “Jogo do Perde-Perde”.
Em todas as ações o estado do Pará sempre resta prejudicado. Perde com a Lei
Kandir, perde com a ilógica lógica de cobrança do ICMS da energia no estado de
consumo, perde com os pesados ônus das mitigações dos impactos sociais e
ambientais dos grandes projetos, perde ao ser tratado apenas como corredor de
exportação, perde quando as ações são pensadas somente NA Amazônia e não PARA
os amazônidas, pede com o contingenciamento das emendas parlamentares da
região. Perde, perde, perde...
Há
muito tempo o Pará entrou no “Jogo do Perde-Perde” diante do restante da federação
brasileira. Em todas as ações propostas somente perdemos. Ao império o bônus, a
colônia o ônus.
Para
espanto da população paraense o que parecia algo absurdo virou uma proposta
concreta diante deste pacto federativo lesivo. Não podemos mais tolerar estes
tipo de comportamento federativo. Tratam-nos sempre como “almoxarifado” do
desenvolvimento alheio, fomentam um modelo econômico excludente do ponto de
vista social, e deixam para os heróis que habitam esta região os significativos
e pesados ônus das mitigações dos impactos sociais e ambientais dos grandes
projetos. Não podemos ser eternamente tratados como colônia de exploração do
Império Brasileiro.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
O COFECON e a Amazônia
Verdade
seja dita. Uma simples visita ao site oficial do Conselho Federal de Economia
(COFECON) demonstra que a Região Amazônica nunca esteve tão prestigiada pela
entidade. Isto é resultado de intenso trabalho dos Conselhos Regionais de
Economia da Amazônia, dos Conselheiros Federais da Região e do Plenário do
COFECON que está dando a devida atenção para a região. Parabéns ao Presidente Paulo Dantas pela forma como está conduzindo a entidade.
Sitio
eletrônico do COFECON: http://www.cofecon.org.br/
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Lançamento do Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional 2014
Ocorrerá
no próximo dia 10 de abril no auditório do Banco da Amazônia o lançamento do
Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional 2014, que neste ano
homenageará Armando Dias Mendes, um grande intelectual que dedicou a sua vida a
estudar a Amazônia. O evento está programado para iniciar às 9h.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Nota do Cofecon - Zona Franca de Manaus
O plenário do
Conselho Federal de Economia (COFECON) manifesta-se favoravelmente à
prorrogação dos incentivos federais concedidos ao Polo Industrial de Manaus
(PIM) / Zona Franca de Manaus para até o ano de 2073, conforme a PEC 506/10
tramitando no Congresso Nacional.
O PIM tem
representado uma efetiva oportunidade de desenvolvimento econômico e social,
não somente para o Estado do Amazonas, mas para todo o Brasil. São mais de 124
mil empregos diretos gerados; investimentos da ordem de US$ 31,2 bilhões nos
últimos três anos; e, por meio da Superintendência da Zona Franca de Manaus
(Suframa), uma significativa participação no processo de desenvolvimento dos
estados da Amazônia Ocidental, sua área de atuação.
Ademais, tem
concorrido de forma extraordinária para a preservação e conservação do bioma
amazônico ao inibir, indiretamente, atividades agropecuárias que implicam no
desmatamento. A continuidade do PIM/ZFM resultará na manutenção da preservação
de sua floresta, hoje de 97% no estado do Amazonas, o que é do interesse de
toda a Nação Brasileira.
As atividades do
PIM/ZFM não estão atreladas à exploração de madeira, pastos ou mesmo agricultura,
mas a um parque Fabril que gera 124 mil empregos diretos e, considerando a
logística em território nacional (como transporte de cabotagem, caminhões,
balsas e aviões; armazenagem e desembaraços) e ainda serviços e comércio, o
número de empregos indiretos ultrapassa os 400 mil. Além disso, contribui
substancialmente para arrecadação tributária (cerca de 50 bilhões de dólares
nos últimos 10 anos).
É sabido ainda que
em todos os estados do Brasil há diversas empresas que fabricam insumos para o
PIM/ZFM e outras empresas que vendem produtos nela produzidos. Igualmente, os
impostos gerados têm possibilitado a execução de investimentos em escolas,
hospitais, transporte e demais serviços públicos.
Em suma, a Zona
Franca de Manaus não é apenas do Amazonas e tampouco da Amazônia Ocidental, mas
do Brasil e de todos os Brasileiros. Desta forma, o Conselho Federal de
Economia vem se posicionar favoravelmente e afirmar que é de fundamental
importância a prorrogação do modelo da Zona Franca de Manaus.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Dos filhos ao pai: uma homenagem ao Armando Dias Mendes
Ontem indo para Brasília, durante o voo, pude
ler com maior cuidado o artigo escrito pelos filhos do prof. Armando Dias
Mendes – Armando Nobre Mendes, Antonio Daniel Mendes,
Alberto Mendes, Artur Mendes, Graça Mendes e André Mendes – para o livro que
estou organizando pela Associação Comercial do Estado do Pará (ACP), numa
iniciativa do atual presidente, Sérgio Bitar, sobre a vida e obra deste que foi
um dos maiores intérpretes da Amazônia. O livro que já está batizado de “Armando
Dias Mendes: Vida e obra de um intérprete da Amazônia”, deverá será lançado no
mês de fevereiro de 2014 e contará com diversos ensaios de renomados
pesquisadores regionais da Amazônia sobre a biografia e obra de Armando Mendes,
além de quarto artigos in memoriam do
autor.
Confessor que fiquei surpreso com a qualidade
dos ensaios, fazendo com que missão posta para este livro fosse plenamente
cumprida. Os artigos, em conjunto, fazem um apanhado preciso da contribuição de
Armando Dias Mendes para o pensamento crítico a respeito do desenvolvimento da
Amazônia, conforme sumário elencado ao final.
Contudo, o que mais me surpreendeu, dando a
obra um “brilho” especial, foi sem dúvida a biografia escrita pelos filhos, “Dos
filhos ao pai”. Por meio dela é possível desvelar a intimidade do prof. Armando
com os familiares, o que somente reiterou o seu legado. Muito clara fica a
relação paternal e o legado de probidade deixado, com alguns exemplos marcantes
citados. Destaca ainda a sua persistência intelectual, eclética, e a sua ficção
pelo vernáculo, muito clara em seus escritos.
Questões pessoais também ressoam e trazem um “q”
de curiosidade a biografia. A adaptação de Armando aos novos tempos, via pressão
“organizada” dos filhos, que contam causos desde a “revolta dos cabelos”, a ida
ao cinema, as peladas no “Maracanamendes”, o hábito de ler andando pelo
corredor, a biblioteca que brotava do nada, a dificuldade de acesso a
informação na época passada, a recusa em receber presentes quando funcionário
público... São relatos que ajudam a compreender melhor a obra do prof. Armando
Dias Mendes. Destaco ainda o esclarecimento sobre a origem da visão “insistencialista”,
ligado diretamente a perda do filho “Aluísio”. Confesso que o prof. Armando já
havia feito menção a isto numa conversa, mas não com tanta riqueza de detalhes.
Abrindo uma digressão, agradeço à família a
menção justa no processo de criação do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA),
a participação do meu pai, José Marcelino Monteiro da Costa. Não tem como fazer
menção à criação do NAEA sem fazer referencia a dupla Armando e Marcelino. Tive
o privilégio de conviver com os dois, e pude ver o respeito e a admiração
mútua. Vi em ambos a perspectiva de que a mudança da trajetória de
desenvolvimento da Amazônia passa obrigatoriamente pela criação de uma consciência
coletiva firmada num processo de formação educacional da qual a universidade é
peça chave. Mas não basta. É necessário que este processo extrapole o meio
acadêmico e tenha condições da intervir no mundo concreto, saindo das análises
abstratas.
Fechando a digressão, agradeço a família pela
enorme contribuição para o esforço de eternizar o legado intelectual de Armando
Dias Mendes. Com licença da família, ouso dizer que um pouco dele seguirá em
cada um daqueles que sonham com uma trajetória diferente de desenvolvimento
para a região.
Segue
o sumário da obra “Armando Dias Mendes: Vida e obra de um intérprete da
Amazônia” que será lançada ano que vem por uma iniciativa da ACP.
PARTE I – ARMANDO DIAS MENDES: VIDA E OBRA DE
UM INTÉRPRETE DA AMAZÕNIA
2. A trajetória de um “desenvolvimentista”
na Amazônia: um breve relato sobre a vida e obra de Armando Dias Mendes –
Danilo Araújo Fernandes
3. Armando Mendes e a invenção da
Amazônia: uma reflexão crítica – David Ferreira Carvalho e André Cutrim
Carvalho
4. Armando Dias Mendes: o colóquio
“impossível” e o legado de um intérprete da Amazônia – Eduardo José Monteiro da
Costa
5. A contribuição de Armando Mendes para a
construção de uma universidade cidadã na Amazônia – Fábio Carlos da Silva
6. Armando Dias Mendes e a profissão de
Economista – Luiz Alberto Machado
7. A Belém de Armando Mendes: história e
representação - Geraldo Mártires Coelho
PARTE
II – ARTIGOS IN MEMORIAN
8. Economistas, Amazônia e Século XXI –
Armando Dias Mendes (in memorian)
9. Palestra de abertura do V ENAM, A
Amazônia, os Economistas e o Século XXI: Achegas à resiliente Doutrina 21 das
sustentabilidades - Armando Dias Mendes (in memorian)
10. Discurso de agradecimento do Prêmio Samuel
Benchimol – Armando Dias Mendes (in memorian)
11. Amazônia: Cidadania ou Capitulação: uma
involuntária alegoria amazônica produzida em parceria por poetas, prosadores e
políticos não amazônicos – Armando Dias Mendes (in memorian).
terça-feira, 11 de junho de 2013
Considerações sobre a Amazônia – (Parte1)
A Região Amazônica é formada por 09 estados da
federação brasileira: Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Maranhão, Pará,
Tocantins, Rondônia e Roraima. De acordo com dados do IBGE para o ano de 2010,
a Amazônia possui um PIB da ordem de R$ 306 bilhões, uma população de 25,4 milhões
de habitantes espargida nos seus 5 milhões de km², divididos em 808 municípios, e um
PIB per capita de R$ 12.026,52. Desta
forma, em que pese possuir 59% do território nacional, possui em relação ao Brasil
apenas 7,39% do PIB, 56% do PIB per capita,
13,36% da população e 14,52% dos
municípios. Somado a isto, destaca-se a baixa densidade demográfica regional
de 05 hab./km², comparada à densidade demográfica brasileira de
22,4 hab./km².
Acho que os números falam por si. O que acham?
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Como votaram os nossos representantes em relação a partilha dos royalties do petróleo?
Precisamos
a cada dia monitorar e fiscalizar o comportamento dos nossos representantes
eleitos. Se não bastasse a apatia que vemos em relação a temas importantes para
o estado do Pará, agora vemos os nossos representantes votando contra os
interesses do nosso estado e de nossas prefeituras. Ao fazerem isto estão votando
contra o nosso povo. Compartilho a lista de como os nossos Deputados Federais votaram
em relação a repartição dos royalties do petróleo. Os que votaram contra, votaram
contra o Pará e contra os nossos interesses. Preferem seguir orientações de
bancadas do que lutar pelo que interessa realmente para o nosso povo. Povo do
Pará, abra o olho!
Deputados paraenses que
votaram contrários a partilha:
1.
Beto Faro (PT);
2.
Claudio Puty (PT);
3.
Zé Geraldo (PT).
Deputados paraenses que
votaram a favor da partilha:
1.
Arnaldo Jordy (PPS);
2.
Asdrubal Bentes (PMDB);
3.
Dudimar Paxiúba (PSDB);
4.
Elcione Barbalho (PMDB);
5.
José Priante (PMDB);
6.
Lira Maia (DEM);
7.
Lúcio Vale (PR);
8.
Miriquinho Batista (PT);
9.
Wandenkolk Gonçalves (PSDB);
10.
Wladimir Costa (PMDB);
Não estiveram presentes na
votação:
1.
Zenaldo Coutinho (PSDB);
2.
Josué Bengtson (PTB);
3.
Zequinha Marinho (PSC);
4.
Giovanni Queiroz (PDT).
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Prêmio Nacional de Desenvolvimento Regional homenageará Armando Dias Mendes
Participei no dia de hoje,
25 de outubro, na sede do Ministério da Integração Nacional do julgamento do
Prêmio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional organizado em parceira entre o
Ministério da Integração Nacional e o Centro Internacional Celso Furtado. O
prêmio que é bianual homenageou nesta edição o economista Rômulo de Almeida
pela sua contribuição a área.
Como de praxe, ao final da
reunião, a comissão julgadora delibera sobre quem será o próximo homenageado
pelo prêmio. Para nossa alegria, de forma unânime, a plenária deliberou que o
próximo homenageado será o nosso saudoso Armando Dias Mendes.
No mês de fevereiro quando
ocorrerá a Conferência Nacional de Desenvolvimento Regional serão entregues os
prêmios da edição de 2012 e será divulgado o homenageado da edição de 2014.
Espero que com a homenagem a
Armando Mendes o Brasil possa dar um pouco mais de atenção a nossa querida
Amazônia.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Conferência pronunciada por ocasião do VI Encontro de Economistas da Amazônia realizado em Belém do Pará
A Amazônia e o Pacto Federativo
Brasileiro
Eduardo
José Monteiro da Costa[1]
Introdução
Inicialmente agradeço a organização do evento
pelo privilégio que me foi concedido de poder compartilhar algumas ideias sobre
o desenvolvimento da Amazônia.
O ano de 2012 marca o centenário da derrocada
da Era da Borracha na Amazônia. A sociedade Amazônica deveria intensamente debater
o seu passado, não como aspecto saudosista, mas para evitar repetir os erros
históricos, que na minha leitura estão se repetindo.
Olhar para a Crise da Borracha significa ter
novos horizontes no tratamento do atual ciclo mineiro. Em função disto
parabenizo os Conselhos de Economia da Amazônia pela escolha do tema e ao
Sistema Cofecon/Corecons pela iniciativa.
Ainda a guisa de introdução quero destacar
que falar de Amazônia é um assunto apaixonante, polêmico e, diria, midiático. Hoje
o mundo inteiro está focado nas discussões da Conferência Rio +20 que irá
discutir o tema da sustentabilidade mundial. Não tenho dúvidas de que grande
parte das discussões desta Conferência terá a Amazônia como temática central,
principalmente porque a região é hoje considerada fundamental para o equilíbrio
climático do planeta – e não vou entrar no mérito desta discussão, se
verdadeira ou falsa. Deixo isto para os especialistas.
Neste contexto tenho certeza de que
especialistas, pesquisadores, Organizações Não Governamentais (ONGs) e
representantes de governos do mundo inteiro trarão opiniões, críticas e
sugestões de como devemos resolver o “problema Amazônia”. Será que mais uma vez
a Geni – fazendo alusão a Conferência Magna de Armando Mendes – será alvo de
pedradas?
Eu temo que sim, mas esta contextualização
inicial é importante porque lamentavelmente em que pese a Amazônia encontrar-se
no centro dos interesses mundiais, ainda permanece na periferia dos interesses
nacionais. Qual a visão que o Brasil tem para a Amazônia? Qual a visão que os
amazônidas têm para a Amazônia?
Rejeito de ante mão os dois paradigmas
polares que são usualmente impostos à Amazônia: santuário intocado ou
“almoxarifado” do desenvolvimento alheio. Nestes breves trinta minutos quero
destacar que a Amazônia é hoje espaço estratégico para a inserção brasileira de
forma diferenciada na economia global em virtude de suas inúmeras
potencialidades latentes oriundas do seu patrimônio natural e biológico.
A Amazônia não é um problema para o Brasil. Com
audácia e vontade política a Amazônia pode se consolidar como a solução de inúmeros
problemas de nosso país. Contudo, antes de qualquer coisa precisamos de um
Projeto de Nação para a Amazônia!
Qual o projeto que o Brasil tem para a
Amazônia? Aliás, apesar dos inúmeros avanços que o Brasil apresentou
principalmente nas duas últimas décadas, ainda carecemos de um Projeto de
Nação. Mas fiquemos somente com a Amazônia que já é assunto deveras complexo.
A tese central aqui defendida é que qualquer
Projeto de Nação para a Amazônia precisa começar com um redesenho de nosso
“Pacto Federativo”, principalmente no que se refere às relações federativas
fiscais.
Para organizar melhor a apresentação, dividi
esta em três tomos:
Tomo I - A visão de Celso Furtado e a
Amazônia
Tomo II - A Amazônia e o Contexto Federativo
Atual
Tomo III - A Necessidade de Reinvenção da
Amazônia
Tomo
I - A visão de Celso Furtado e a Amazônia
A superação do subdesenvolvimento da Amazônia
é uma problemática federativa. Se o nosso mestre Celso Furtado estivesse ainda
entre nós participando deste evento não tenho dúvida de que ele faria esta
ilação.
Peço desculpas aos participantes pelo
atrevimento, mas vou me permitir uma audácia: vou procurar relacionar as ideias
do mestre Celso Furtado com a “questão Amazônica”. Sabemos que a Amazônia nunca
foi objeto principal de estudos de Celso Furtado. O seu desiderato intelectual
era a “problemática do Nordeste”, as especificidades na formação de economias
subdesenvolvidas e a superação do subdesenvolvimento. Aí reside o seu
ineditismo intelectual. Enquanto a academia procurava estudar os ditames do
desenvolvimento econômico, Furtado preocupou-se em estudar os determinantes do
subdesenvolvimento. Neste sentido, em que pese a Amazônia nunca ter sido alvo
central nas suas obras, aparecendo apenas dentro de análises mais gerais, é
perfeitamente possível transpor os fundamentos da visão de Furtado para
compreender a “problemática da Amazônica” e a superação da sua condição de
região subdesenvolvida.
Seguindo as pistas deixadas por Furtado a
superação da condição de subdesenvolvimento e periferia somente pode ser
concebida dentro de uma estratégia federativa alicerçada por um Projeto de
Nação que satisfaça três aspectos:
(i)
aumento
da eficácia do sistema social de produção;
(ii)
satisfação
das necessidades elementares da população; e,
(iii)
realização
de objetivos dos grupos dominantes que disputam a utilização de recursos
escassos em uma determinada sociedade.
Em outras palavras, o desenvolvimento se
constitui na capacidade dos grupos internos subordinarem o avanço das forças
produtivas, o ritmo do progresso técnico e a divisão social do trabalho aos
desígnios gerais de uma coletividade que se expressa (justo) por suas
diversidades no conjunto federativo. Ou seja, o resgate
da tradição intelectual furtadiana repõe na ordem do dia a importância de um Projeto
de Nação face os desafios e dilemas presentes nos insondáveis rumos da
globalização, e, nesse sentido, resgata a “questão regional” como parte
integrante – e necessária – de um processo de superação do subdesenvolvimento
em âmbito do próprio espaço nacional.
A
análise de Furtado, longe de decretar o fim do Estado nacional – em nome da
internacionalização irrestrita do espaço local ou regional –, esgrima a noção
de subdesenvolvimento como sendo a expressão de um insuficiente nível de
racionalidade pública. Por isso, a sua superação somente pode ser concebida no
quadro de um projeto político transescalar,
articulado e coordenado pelo Estado – enquanto centro legítimo de decisão –,
capaz de subordinar os interesses individuais e localistas aos interesses
coletivos regionais e nacionais, buscados a médio e longo prazo por meio do
planejamento.
Ou seja, a situação ex post da economia é resultante de uma “mão-visível” do Estado,
que representa os interesses da superestrutura social ex ante.
Mais do que do que
transformação, o desenvolvimento é invenção,
na medida em que comporta um elemento de intencionalidade – vontade política.Em
vista da superação do subdesenvolvimento, Celso Furtado aponta três direções a
serem seguidas na política econômica.
a) Em
primeiro lugar, deve-se abandonar o critério das vantagens comparativas
estáticas como fundamento da inserção na divisão internacional do trabalho em
favor de uma nova forma de inserção estimuladora do avanço tecnológico.
b) Em
segundo lugar, é imprescindível a introdução do planejamento como instrumento
ordenador da ação do Estado.
c) E,
finalmente, destaca o fortalecimento das instituições da sociedade civil, de
cuja ação se pode esperar a renovação das bases sociais de sustentação do
Estado e a contestação dos padrões prevalecentes de distribuição da renda.
Na ótica de
Furtado, a simples internacionalização do espaço regional – e esta afirmação é
possível transladar para a “questão Amazônica” – impede as localidades de se
integrarem, com soberania, ao mundo e à dinâmica civilizatória contemporânea,
visto que somente um projeto inequivocamente nacional, comprometido com os destinos da comunidade de interesses
que representa, é capaz de romper as restrições tecnológicas, culturais e
financeiras do subdesenvolvimento.
Para isso, o
exercício da vontade política, apoiada num amplo consenso social e referenciada
a um Projeto de Nação, precisa ser entendido como um processo dinâmico que
transcende aspectos de natureza puramente econômica, alcançando todas as demais
dimensões da vida social e, por isso mesmo, comportando, sempre, um elemento de
invenção.
O desenvolvimento
se manifesta como um processo autônomo, auto-sustentado e civilizador, baseado
no progresso tecnológico e amparado em estruturas sociais mais complexas
(englobando aspectos culturais, institucionais, políticos e sociais), que
alargam os horizontes de possibilidades dos agentes e conduz à consagração de
valores, bens e serviços que se difundem mais homogeneamente por toda a
sociedade, em função da felicidade dos partícipes (a FIB que Armando Mendes
destacou na quarta-feira em alusão a Eduardo Gianete).
Em última instância, implica na ampliação da liberdade em todas as
esferas da vida e da sociedade. Neste sentido, o desenvolvimento necessita
desobstruir as forças que tencionam pela manutenção das estruturas tradicionais
de dominação e reprodução do poder, requerendo, portanto, ser implantado e
coordenado por uma unidade dominante possuidora de poder, força e coação
(leia-se Estado).
Possui inerentemente dois aspectos peculiares: um mais atraente
próprio de um processo de arranjo, montagem, dar sentido, direção, coerência as
transformações que uma sociedade quer armar e projetar para o futuro, dispondo
de certos instrumentos eleitos para determinados fins; e aquele menos atraente,
próprio dos processos de se desmontar, desarranjar, importunar, constranger,
frustrar expectativas e ações deletérias à construção social.
Tomo
II - A Amazônia e o Contexto Federativo Atual
Não tenho dúvida de que a Amazônia é hoje
vítima de uma relação federativa perversa e de interesses exógenos a região. A
própria integração da região no contexto de acumulação mundial durante a Era da
Borracha foi decorrente da necessidade de um insumo estratégico, a borracha.
A integração da Amazônia durante o Período
Militar, sob o lema “integrar para não entregar”, transformou a região em
espaço receptáculo de ações e políticas pensadas exogenamente – não para a
Amazônia, mas na Amazônia. Neste contexto a região transformou-se em espaço
para o fornecimento de insumos estratégicos como inicialmente minérios e
energia (e mais recentemente grãos e biodiesel), e espaço receptáculo de mão de
obra excedente de outras regiões. Ou seja, a Amazônia foi integrada
recentemente ao espaço nacional de acumulação estrategicamente para garantir a
acumulação e capital noutras regiões e para dar vazão a pressões sociais também
de outras regiões.
Em que pese este papel diria estratégico
desempenhado pela região, a Amazônia acabou vítima de uma relação federativa
deletéria que acaba condicionando a região a perpetuação dos seus lastimáveis
indicadores sociais e a sua condição de região periférica e subdesenvolvida.
Números significativos em termos de
investimentos na região são freqüentemente divulgados, porém continuamos tendo
lastimáveis indicadores sociais no que tange a mortes no campo, tráfico de
seres humanos, educação e saúde, sem falar nas milhares de pessoas que vivem em
situação de vulnerabilidade social e extrema pobreza.
Grande parte de nossos problemas decorrem do
modelo de desenvolvimento adotado, da ineficiência em termos de gestão pública
e da baixa capacidade que os setores públicos estaduais e municipais têm para
intervir concretamente, derivado, este, em parte (vou deixar hoje de lado a
questão da capacidade de gestão, mas este é um problema que não pode ser
omitido), de uma capacidade orçamentária e financeira limitada e muito aquém
das reais necessidades em termos de investimentos e ações em termos de
políticas públicas.
Neste contexto, contribui decisivamente o
modelo de federalismo fiscal tendo como principal algoz a Lei Kandir e a
cobrança do ICMS somente no local de consumo da energia elétrica, deixando aqui
na região os ônus em termos de mitigação dos impactos sociais e ambientais dos
grandes projetos minerais e hidrelétricos sem uma coerente contrapartida em
termos de recolhimento de tributos aos cofres públicos do estado.
A forma como Belo Monte nos foi empurrada
goela a baixo é um exemplo. Grande parte dos condicionantes prévios não foram
atendidos e a “ilógica lógica” de cobrança do ICMS de energia no destino continuará,
para tristeza de quem aqui reside. Ficaremos mais uma vez com significativos
impactos sociais e ambientais do empreendimento sem uma devida compensação
financeira que permita que políticas públicas pró-ativas e adequadas possam ser
implementadas.
Ao lado disto, continuamos sendo lesados com
as perdas da Lei Kandir e com o não repasse das compensações financeiras que
teoricamente o Pará tem direito. A nossa região está sendo tratada como simples
almoxarifado. Daqui tudo se tira e muito pouco é deixado a título de
compensação. É em função disto que a o modelo federativo, que passa
fundamentalmente pelo regime federativo fiscal, precisa ser revisto.
E neste contexto a Reforma Tributária se
apresenta como uma “janela de oportunidade” diferenciada. Não há dúvida de que
a Reforma Tributária precisa ser tratada num contexto de necessidade de redução
de nossa carga tributária, de inversão do atual modelo de tributação, altamente
regressivo, e da necessidade de se aumentar a competitividade do setor empresarial
nacional frente ao acirramento da competição nos mercados globais.
Contudo, da forma da forma como a proposta de
Reforma Tributária vem sendo conduzida ela tem tudo para manter o atual status quo da estrutura de poder
política, econômica e regional do Brasil. Indo mais além ela é um perigo para a
Amazônia – podendo agudizar o desequilíbrio federativo brasileiro e condenar à
periferia brasileira a perpetuação do seu modelo de desenvolvimento predatório
e desigual.
Neste sentido, uma reforma ampla é
fundamental para colocar o país e as regiões periféricas em uma trajetória de
desenvolvimento sustentável, mas para isto precisamos:
a)
Vencer
o eterno problema do conflito federativo entre as três esferas de poder da
federação brasileira;
b)
Acabar
definitivamente com a guerra fiscal;
c)
Romper
com a “ilógica lógica” de cobrança do ICMS de energia elétrica no destino;
d)
E,
acima de tudo, acabar com a famigerada Lei Kandir, que privou os cofres
públicos paraenses de 21,5 bilhões de reais de 1997 até 2010, conforme estudo
elaborado pelo Tribunal de Contas do Estado do Pará, e que poderiam ter sido
canalizados para a sociedade paraense na forma de políticas e ações públicas.
Indo mais a fundo, cinco pontos se consolidam
como a verdadeira armadilha da Lei Kandir para a superação do
subdesenvolvimento:
(i)
Impede
a formação de cadeias produtivas regionais verticalmente integradas, com
empregos qualificados e a internalização da riqueza e da renda gerada;
(ii)
Reforça
a fuga de empresas nacionais para o exterior;
(iii)
Enfraquece
o poder político dos estados e do País;
(iv)
Abala
a unidade econômica e federativa do país; e,
(v)
Reduz
as perspectivas de crescimento econômico do estado e do País.
O fato é que a Lei Kandir manda
explicitamente um sinal para o setor privado que é um contra senso para o
desenvolvimento de regiões periféricas, afirmando que a maior lucratividade
está na exportação de bens primários com baixa agregação de valor na medida em
que a verticalização da produção implica no pagamento de impostos mais
elevados.
Os defensores da Lei Kandir e alguns ingênuos
dizem que não podemos pensar em tributar a nossa exportação de minérios na
medida em que não se tributa exportação. É aqui que mora o perigo, a
perspicácia de alguns e a ingenuidade de outros. De fato, não se exporta
imposto no setor industrial, porém esta lógica não é verdadeira para bens
primários e semi-elaborados. A não tributação das exportações de bens primários
significa que estamos exportando muito mais do que matérias-primas, junto com
os nossos minérios e produtos extrativos florestais estamos exportando
empregos, e isto muito poucos se dão conta.
Ademais, a Reforma Tributária permite colocar
na agenda de discussão uma temática fundamental para as regiões periféricas
brasileiras, a efetiva institucionalização do Fundo Nacional de Desenvolvimento
Regional (FNDR), que se encontra emperrado no Congresso Nacional por não ser de
interesse prioritário das bancadas do centro-sul da federação.
Toda a argumentação de um federalismo
cooperativo cai por terra ante a inexistência de um fundo que permita com que
ações de políticas públicas possam concretamente ser implementadas em regiões
periféricas, ou ante ao esvaziamento da Sudam e Sudene. Indo mais além, encaro
com muita preocupação a estratégia anunciada de se levar a frente à Reforma
Tributária de forma fatiada.
Assim, na medida em que não há consenso em
determinados temas considerados polêmicos, aspectos considerados pouco
polêmicos e de interesse direto do Governo Federal deverão ser priorizados e
assuntos polêmicos como a Lei Kandir e a cobrança do ICMS da energia elétrica
no estado de consumo muito provavelmente não entrarão na pauta.
Isto significa que corremos o risco como
sociedade Amazônica de não aproveitarmos esta “janela de oportunidade” aberta,
não revertendo a Lei Kandir e a questão do ICMS de energia. Assim, se não
houver maior interesse, envolvimento e unidade, a Reforma Tributária pode se
consolidar como um verdadeiro engodo para a sociedade Amazônica.
É em função disto que muitas vezes chamo a
atenção de que estamos perdendo a atenção do que é fundamental, como a mudança
de nosso modelo atual de desenvolvimento, a Reforma Política e a Reforma
Tributária.
A solução para o desenvolvimento da Amazônia está
na melhoria do provimento de serviços públicos e isto somente pode acontecer
revendo o atual pacto federativo fiscal e aperfeiçoando a capacidade de gestão
dos estados e municípios.
Neste sentido, a construção de um efetivo
projeto de desenvolvimento para a região perpassa fundamentalmente pela revisão
deste pacto federativo, pelo aumento da capacidade orçamentária e financeira do
estado e dos municípios, pela reversão da Lei Kandir e da “ilógica” lógica de
cobrança no ICMS no local de consumo, ao lado do aumento da capacidade que o
estado tem de gerir e promover políticas públicas territorializadas,
articuladas e pactuadas.
Tomo
III - A Necessidade de Reinvenção da Amazônia
A mensagem derradeira que quero deixar neste
ensaio é relativa a nossa apatia como sociedade a posição que está sendo
delegada a Amazônia em nosso pacto federativo.
Insisto, a verdade, para muitos
inconveniente, é que hoje a Amazônia está relegada a um papel de mera
fornecedora de insumos, matérias-primas e produtos com baixo valor agregado
para a garantia do processo de acumulação do capital no centro-sul do Brasil ou
em outras partes do mundo.
Os economistas e amigos João Tertuliano Lins
Neto e Ramiro Nazaré sempre insistem em nossos debates no CORECON-PA, e eu
concordo, que que quando se pensa a Amazônia se pensa somente no fluxo out, o fluxo in é desconsiderado.
Continuamos sendo a periferia da periferia,
ou uma periferia ativa como alguns assim nos chamam. Como se isto fosse um uma
espécie de prêmio de consolação que amenizasse os nossos péssimos indicadores
sociais. Continuamos sendo uma região com inúmeras riquezas naturais, elevadas
potencialidades, mas com o povo pobre.
O estado do Pará, que está sediando este
evento, e que é decantado em verso e prosa como a economia mais pujante e
diversificada da Amazônia, continua campeão em prostituição infantil, trabalho
escravo, violência contra a mulher, violência no campo e uma série de outros
indicadores que como paraense me envergonho. Neste contexto, alguns iluminados
surgiram com uma solução mágica. Vamos separar!
Como se a situação atual do estado fosse
decorrente apenas da incapacidade do Estado em gerir um território com
dimensões enormes e não da posição que historicamente tem sido determinada ao
Pará, como mera província de recursos naturais, de nosso modelo arcaico de
fazer gestão pública e da irresponsabilidade administrativa de alguns.
Mais uma vez uma pequena elite política e/ou
econômica, muitos destes “importados”, colocou o seu projeto político-pessoal
acima dos interesses de uma coletividade. Precisamos realmente reler o mestre
Celso Furtado.
Muitas vezes me choco com a apatia com que
determinados temas fundamentais são tratados aqui na Região. Ao lado desta
apatia, há sem dúvida a falta de um claro e efetivo projeto de desenvolvimento
para a Amazônia capaz de unir a classe política, a elite econômica, os
movimentos sociais e a sociedade em geral, e que permita com que os nossos
interesses possam ser honradamente defendidos.
Por que digo isto neste ensaio?
Por que se cabe a uma categoria profissional
ter uma visão clara deste processo, este profissional é o economista, que é
ensinado a ter uma visão holística e crítica de mundo. Os economistas da
Amazônia e do Brasil não podem ficar calados em relação a este novo processo de
colonização que está nos sendo imposto.
Qual é o projeto de Brasil que temos para a
Amazônia? Aliás, reintero, temos algum projeto de nação?
No último Encontro de Economistas da Amazônia
(ENAM) realizado ano passado na Cidade de Manaus fiz alusão a uma obra clássica
de Armando Dias Mendes, A Invenção da
Amazônia, e neste ENAM que se realiza em Belém do Pará repito:
Se em algum momento a Amazônia como nós hoje
a conhecemos foi inventada, e o foi, principalmente através de políticas e
ações coordenadas pelo Governo Federal, hoje a Amazônia precisa ser reinventada
e nós economistas precisamos exercitar o nosso espírito criativo neste momento.
Como nos ensinou Celso Furtado, o
planejamento do desenvolvimento envolve criatividade e inventividade. Mais do
que nunca a sociedade amazônica precisa de verdadeiros economistas!
Armando Dias Mendes: o legado de um mestre
Compartilho na íntegra a homenagem prestada pelo Conselho
Regional de Economia do Estado do Pará (CORECON-PA), Sindicato dos Economistas
do Estado do Pará (SINDECON), Associação de Oficiais da Reserva do Exército
Brasileiro (AORE), Conselho Federal de Economia (COFECON) e Federação Nacional
dos Economistas (FENECON), que eu escrevi e que foi lida por ocasião da Missa
de Sétimo dia do Prof. Armando Dias Mendes no último dia 21 de junho.
Armando Dias Mendes: o legado de um mestre
Eduardo
José Monteiro da Costa[1]
No último dia 15 de junho de
2012 a sociedade amazônica entrou em um profundo luto, afetivo, moral e
intelectual. Os amazônidas perderam uma de suas maiores referências. Exemplo de
amigo, irmão, professor e mestre. Um sonhador por natureza. Alguém que
perseguia a utopia. Faleceu no período da tarde, em sua residência em Brasília,
Armando Dias Mendes. Ícone do pensamento crítico sobre o desenvolvimento da
Amazônia; Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais; Especialista em
Planejamento Regional; professor e Pró-Reitor da UFPA; Doutor honoris
causa pela
Universidade Federal do Pará (UFPA) e pela Universidade da Amazônia (UNAMA); fundador
do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA); membro destacado e fundador da
Associação de Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro (AORE); membro emérito
do Conselho Regional de Economia do Estado do Pará (CORECON-PA). Foi Assessor
Especial do Ministro e Secretário-Geral do Ministério da Educação; Professor
Colaborador da Universidade de Brasília (UNB); relator do Currículo Mínimo do
Curso de Ciências Econômicas no Conselho Federal de Educação; presidiu a
Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia; e foi eleito Personalidade
Econômica do Ano de 2006 pelo Conselho Federal de Economia (COFECON), onde recentemente
atuava como Consultor para Amazônia, desenvolvimento sustentável e ensino
superior.
Dentre as inúmeras funções
públicas que desempenhou, presidiu o Banco de Crédito da Amazônia (antecessor
do Banco da Amazônia) e coordenou o I Plano Quinquenal de Desenvolvimento da
Amazônia (1955-1959) para a Superintendência do Plano de Valorização Econômica
da Amazônia (SPVEA), que antecedeu atual Superintendência de Desenvolvimento da
Amazônia (SUDAM).
Não há dúvida de que Armando
Mendes, do início ao final de sua jornada, sonhava com uma trajetória diferente
para a nossa região. Em sua jornada deixou vários rastros e um imenso legado
intelectual: inúmeras palestras e conferências. Diversos livros publicados: Estradas
para o desenvolvimento; Viabilidade Econômica da Amazônia; A Invenção da
Amazônia; Instrumentos para a Invenção da Amazônia; Ciência, Universidade e
Crise; O mato e o mito; A casa e as suas raízes; A cidade transitiva; Amazônia
– modos de (o)usar; e, O Economista e o Ornitorrinco.
Foi
por lutar por causa nobre, a Amazônia, que no dia 21 de abril de 2008 recebeu
na Cidade de Palmas, Tocantins, o Prêmio Samuel Benchimol. Em seu discurso de
agradecimento já destacava de forma crítica que a Amazônia era estigmatizada
entre dois
fundamentalismos nefelibatas: o ecológico e o econômico. Como contraponto
Armando Mendes clamava para que a Amazônia: não fosse mera extensão nacional,
mas reta intenção; não se configurasse como questão regional, mas nacional de
primeira linha; superasse o antagonismo do caráter bi-polar, contraditório e
ambíguo da postura nacional frente à região; fosse receptáculo de ações pela
região e não somente na região; suporta-se os usos, mas rejeitasse os abusos;
fosse alvo de amor benevolente do Estado do Brasil, e não de domínio sobre o
Estado do Grão-Pará; fosse palco de dois dois imperativos categóricos do
momento: o envolvimento com o hábitat, o desenvolvimento do habitante.
Dentre as inúmeras lições do mestre é possível
destacar a necessidade enfrentar uma causa social e não pessoal. Em seu artigo “A Oca e a Flexa”, Armando Mendes
ressaltava: “ É preciso, pois, garantir a existência de um lugar para reflexão
ininterrupta e sistemática, já não sobre o existir físico, mas sobre o pulsar
do espírito do lugar amazônico – a sua alma mater. Essa reflexão há de se
tornar tarefa irrecusável dos amazônidas de boa cepa, os nativos e os adotivos
— partes conscientes e viventes da obra da criação prolongada, situada aqui,
ainda em curso, inconfundível”
No último dia 06 de junho o
professor Armando Mendes, como gostava de chamá-lo, brindou uma atenta plateia
por ocasião da abertura do VI Encontro de Economistas da Amazônia com a
Conferência Magna: “1912 – 2012 Cem Anos da Crise da Borracha na Amazônia: Do
Retrospecto ao Prospecto”. Não imaginávamos, mas era a sua despedida! Deixou a
nossa convivência em alto estilo, com humor, irreverência, mas acima de tudo
apresentando uma visão crítica sobre a forma como a nação brasileira trata a
Amazônia. Relacionou a problemática da Amazônia com
diversos clássicos da literatura brasileira. Chamou atenção para a forma como a
Amazônia vem sendo castigada por um pacto federativo perverso. Recorrendo a sua
memória histórica contou ao público presente como a Constituição “Cidadã” de
1988, que se propunha lutar contra as desigualdades sociais e regionais, foi,
por manobras das bancadas de estados mais desenvolvidos, distorcida em seus
aspectos fundamentais. Para Armando Mendes a Constituição Federal é
contraditória na medida em que por meio de uma série de legislações
complementares acabou construindo um modelo federativo que reforça as
desigualdades regionais. Assim, se referindo à forma como alguns estados são
tratados, destacou que “alguns são mais iguais do que os outros!”
Como
bons discípulos, se aprendemos bem a lição do mestre Armando Mendes, podemos
dizer que se em algum momento a Amazônia como nós hoje a conhecemos foi
inventada, e o foi, principalmente através de políticas e ações coordenadas
pelo Governo Federal, hoje a Amazônia precisa ser reinventada.
Compartilho em sua homenagem
um pequeno trecho, que considero bastante apropriado, da abertura de sua
conferência no dia 26 de junho de 2006, quando por ocasião do XXI Simpósio
Nacional dos Conselhos de Economia (SINCE), realizado na Cidade de Vitória
(ES), recebeu a Comenda Personalidade Econômica do Ano outorgada pelo COFECON:
“Serei
simples, sucinto e sóbrio como Paulo na segunda carta a Timóteo: Combati o bom
combate, completei o percurso, guardei a fé (...) Agora é essencialmente o
empenho por uma causa superior, que ela em mim personaliza: a causa dos
economistas. Dos bons economistas - competentes. Dos economistas bons - compassivos.”
Mais a frente Armando Mendes continuava, como
a leveza de quem também era poeta: “A comenda pessoal, essa eu a incorporo com
singeleza ao meu currículo já em preocupante contagem regressiva. E prossigo na
incessante caminhada no Caminho do Parauassu ou Grão-Pará, ou Rio Grande das
Amazonas. Ao fim e ao cabo a Amazônia (...) Esse, o caminho a palmilhar
incansavelmente. Esse, na verdade, o caminho líquido e certo em que é preciso
não se deixar levar de bubuia no remanso e muito menos na pororoca. Nele cumpre
navegar com uma boa carta de marear, posto que estamos postos sobre o Rio-Mar.
Pois navegar – e agora sou eu que vou de bubuia com Pessoa - navegar é preciso
(...) Como dizia a seu modo, em outro contexto vivencial, filho meu de nome
Aluísio – já por Deus levado faz tempo, Deus seja louvado – mais do que
existencialistas tardios precisamos ser ‘insistencialistas’ antenados. A senha
é essa: não desistir. Insistir, insistir, insistir".
Quem teve o privilégio de conviver com Armando
Mendes e o discernimento de guardar os seus ensinamentos certamente se tornou
um cientista social com uma visão mais abrangente e crítica do mundo. Como
lição levamos o seu exemplo, não basta interpretar os fenômenos, é preciso
intervir e mudar a realidade.
Professor Armando Mendes, muito obrigado!
Pela convivência respeitosa e harmoniosa. Pelos diversos ensinamentos. Pelo
estímulo a busca por uma trajetória diferente de desenvolvimento para a
Amazônia. Pelo exemplo de economista, pai, professor e amigo. Seguimos nós que
aqui na bubuia da vida, nos remansos amazônicos, insistindo, insistindo,
insistindo. Adeus!
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Rio+20 e a Amazônia: o lamentável fim melancólico
Curiosamente a o documento final da Rio+20 não
faz menção a Amazônia. Lamentavelmente as discussões que ocorreram durante a
semana passada no Rio de Janeiro, envolvendo “especialistas” e estudiosos do
Brasil e do mundo todo, apresentou uma visão caricaturada da região. Ficou
claro que os mais de 25 milhões de habitantes da região para estes são apenas
um pequeno detalhe. No anseio ambientalista pela preservação da floresta, causa
nobre, esquecem-se as pessoas. Que sustentabilidade é esta que omite a pobreza,
a miséria e a exclusão social? Para mim isto não é sustentabilidade. Isto é
oportunismo travestido de uma causa politicamente correta. Está claro que as discussões estão sendo
manipuladas para preservarem os nossos recursos naturais não para o bem de quem
aqui habita. Mas para o bem daqueles que sempre trataram a região como seu
almoxarifado.
O adeus de Roberto Santos
Faleceu no dia de ontem, 24 de junho, o prof.
Roberto Santos, autor do clássico História Econômica da Amazônia (1800-1920),
uma obra de referência para quem quer estudar a Amazônia. A sua morte é mais
uma perda para quem procura estudar a região e buscar a construção de uma
trajetória diferente. O seu corpo foi velado no Tribunal Regional do Trabalho
(TRT) durante o dia de ontem e hoje pela manhã o cortejo fúnebre saiu as 9h. Deixamos
os nossos sentimentos a família.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Armando Mendes: Discurso de agradecimento do Prêmio Samuel Benchimol
No ano de 2008, no dia 21 de abril na
cidade de Palmas (TO) o professor Armando Dias Mendes recebeu o Prêmio Samuel
Benchimol na categoria Personalidades. Compartilho na íntegra o seu discurso de
agradecimento.
"Ao receber a láurea honrosa que
porta o nome do eminente amazônida, amazonólogo e empreendedor Samuel
Benchimol, em meu nome e no nome de todos os laureados associo-me ao justo
tributo à sua memória. E procuro, de algum modo, corresponder à distinção recebida,
dizendo um pouco da minha saída em campo na busca de uma utopia amazônica
plausível e factível. E essa busca traça uma rota, o “Caminho de Parauassu”.
1. Aos 5 de junho de 1888, no
Parlamento do Império, deputado de nome João Penido, obviamente não amazônida,
interpelou o colega Mâncio Ribeiro, do Pará: “Onde é essa Amazônia de que
o nobre deputado tanto tem falado?” Já ao fechar 1999, pesquisa
revelava que as três ‘marcas’ mundialmente mais conhecidas eram Jesus Cristo, a
Coca-Cola e a Amazônia. Alguma coisa acontecera, no ínterim, capaz de explicar
por que e como uma região, antes desconhecida dentro do próprio país, se
tornara o espaço natural e social mais visível na face da terra.
Essa alguma coisa foi a transformação
do ecúmeno global que, tendo destruído grande parte das florestas nativas ao
redor do mundo, faz da hiléia amazônica a maior e mais relevante selva
primitiva remanescente. Equivale a perto de um quarto das matas originais
poupadas – e em termos relativos tende a ganhar importância maior – o que a
converte na esperança ultima de preservação da vida no planeta. A tanto
autoriza o conhecimento crescente – ainda incipiente – da biodiversidade que
abriga. E também o reconhecimento do papel chave do enorme caudal de água doce
líquida potável que acumula. Assim, é compreensível que ela se tenha convertido
no campo de liça e na faísca que incendeia a cobiça universal.
A transformação da sua imagem ao
redor do mundo consolidou o enigma e instalou o paradoxo que torna a Amazônia
degradada no alvo e estigma da ira mundial, uma espécie de Geni, a apedrejada
-- aquela do Chico Buarque – mas globalizada. Isso, por um lado. E pelo outro,
converte a Amazônia preservada no objeto de culto e anima derradeira da
humanidade. Algo próximo da Amélia, a “mulher de verdade” que trabalhava com
fome – aquela de Mário Lago -- também em escala planetária.
Nem uma coisa nem outra é a imagem do
caminho a percorrer e, contudo, é ambas as coisas. E assim o paradoxo assume o
feitio de oxímoro.
2. Como os brasileiros em geral – os
amazônidas e principalmente os não amazônidas – lidam com semelhante
perplexidade? Em maioria, lidam mal. Cultivam no mundo afetivo uma epidérmica
simpatia ufanista pela Amazônia, seu imaginário e seus mistérios. No mundo
efetivo flutuam, desarvorados, entre dois fundamentalismos nefelibatas: o
ecológico e o econômico.
O primeiro, mendaz e arrimado em
Euclides de cem anos atrás sustenta que no cenário majestoso o homem é
ainda um “intruso impertinente”. O segundo, voraz, pretende que o puramente
natural é que é abstruso e é inevitável dominá-lo – porque assim está escrito
(Gn 1,26) – e urge transfigurá-lo de fútil em útil.
Mas se décadas atrás havia um ou dois
milhões de brasileiros “amansando o deserto”, hoje somos 25 milhões, e pois,
deserto ele já não é. Os dois fundamentalismos são mutuamente
excludentes. Com efeito, e só para argumentar, o modelo extrativista – o jardim
a ser cultivado e guardado, como determinado em outra passagem da escritura
citada (Gn 2,15) - se estendido aos 25 milhões exigiria um Éden ideal, com
superfície territorial cinco vezes maior do que o real. O modelo
industrialista, ao seu turno, precisaria de pelo menos uma dúzia de pólos
manufatureiros similares ao manauara para abarcar a totalidade dos amazônidas,
com fatais rebatimentos na textura econômico-social, espacial e política
do país.
Longe de serem duas possibilidades
antepostas, são duas absurdidades de soma zero.
3. Que coisas tenho (re)buscado, na
contramão da história do passado, em busca de sólidos alicerces para a história
do futuro? Coisas simples, todavia densas e em si mesmas tensas. E em
alguns aspectos são imensas. Tais como:
·
Reconhecer que a Amazônia não pode ser mera extensão, mas deve tornar-se
clara intenção nacional. Reta intenção, de preferência.
·
Logo, assumir que o clamor de Parauassu não configura questão
regional mas questão nacional de primeira linha.
·
E disso deduzir que a sua preservação e valorização longe de ser favor
facultativo, constitui dever impositivo do país.
·
Suplantar, para tanto, o caráter bi-polar, contraditório e ambíguo da
postura do Estado nacional frente à região.
·
Pugnar, em coerência, para que as ações de governo na Amazônia sejam,
basicamente, ações pela Amazônia.
·
Entranhar nos fundamentos dessa Agenda ou caderno de encargos o
princípio fundamental de que a Amazônia suporta usos, rejeita abusos.
·
Decidir para valer que às metas regionais correspondam modos, meios e
métodos quantitativa e qualitativamente compatíveis.
·
Perceber que a metanóia regional a perseguir passa pela nacional. Pela
conversão nacional, sincera e efetiva à Amazônia.
·
Levar a que o Estado do Brasil devote ao Estado do Grão-Pará amor
benevolente, não concupiscente. Atitude de guarda, não de domínio.
·
E enfrentar o desafio de manter a Amazônia de pé -- a sua natura e a sua
cultura -- todavia atuantes, não expectantes.
·
Praticar, enfim, fidelidade aos dois imperativos categóricos do momento:
o envolvimento com o hábitat, o desenvolvimento do habitante.
·
E ajudar a engenhar as mudanças de hábitos requeridas para a
sustentabilidade da naturalidade, e em última análise, da sociedade.
·
Inscrever, em suma, com pertinência, a suma relevância da Amazônia nessa
Agenda e nela perseverar com pertinácia.
·
Tanto equivale, é certo, a inventariar o potencial amazônico, mas
sobretudo a inventar-lhe um futuro melhor. E inovar, com apoio em uma forte
vontade política, não só dos políticos mas da polis nacional.
Uma vontade coletiva, cidadã, cívica.
Esse, o almejado paradigma.
4. Esse o ritornelo que entôo há
décadas, repetidas vezes com essas mesmas palavras. Esses, os argumentos
expostos em alguns livros e muitos outros escritos. E muitas falas proferidas
em público e em privado, em solilóquios e colóquios, arredio a circunlóquios.
Partes dessa meditação recorrente
vieram a cair prematuramente no domínio público. Que assim seja. Outras são
reproduzidas aqui e ali aparentando ineditismo por novos descobridores e
inventores indígenas e alienígenas, e sejam bem-vindos. São encontradiças junto
com seus descobrimentos, seus inventos e seus deslumbramentos em lugar de honra
nas suas Relações, relatos, relatórios.
As utopias de cada momento, porém,
são atravessadas por apatias que varam todos os momentos. Para sacudi-las é que
iniciativas como esta -- e Samuel Benchimol é o seu apropriado ícone – são
aptas. Provam-no as distinções proclamadas nas áreas ambiental, social e
econômico/tecnológico.
Dignificado e estimulado, resta-me –
falando uma vez mais por todos os agraciados – saudar respeitosamente os
idealizadores e realizadores do Prêmio. A comenda pessoal, essa eu a incorporo
com singeleza ao meu currículo já em preocupante contagem regressiva. E
prossigo na incessante caminhada no Caminho do Parauassu ou Grão-Pará, ou Rio
Grande das Amazonas. Ao fim e ao cabo a Amazônia.
Esse, o caminho a palmilhar
incansavelmente. Esse, na verdade, o caminho líquido e certo em que é preciso
não se deixar levar de bubuia no remanso e muito menos na pororoca. Nele cumpre
navegar com uma boa carta de marear, posto que estamos postos sobre o Rio-Mar.
Pois navegar – e agora sou eu que vou de bubuia com Pessoa - navegar é preciso.
Como dizia a seu modo, em outro
contexto vivencial, filho meu de nome Aluísio – já por Deus levado faz tempo,
Deus seja louvado – mais do que existencialistas tardios precisamos ser
‘insistencialistas’ antenados.
A senha é essa: não
desistir. Insistir, insistir, insistir".
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